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QUINTA-FEIRA, DIA 31
31/01/1963

Agora tenho duas fantasias de Coelhinha: uma de cetim laranja e outra azul-rei. A escolha de cores e a qualidade do cetim são quase as mesmas dos catálogos de material esportivo. Os corpinhos das fantasias, pré-cortados para caber em corpos e seios de tamanhos variados, são experimentados na mesma hora. Aguardei, de pé, no piso de cimento, com os pés descalços e uma calcinha de biquíni. A chefe de guarda-roupa me deu um tapetinho de banheiro.

— Não dá para deixar uma Coelhinha novinha em folha pegar gripe — foi o que disse. Perguntei se ela poderia seguir a linha do meu biquíni; a fantasia que eu experimentara no dia anterior era mais cavada do que qualquer uma que eu vira em fotografias. Ela riu. — Olha, querida, se você acha que aquela estava cavada, devia ver umas que usam por aqui.

A fantasia foi aparada e apertada até estar com cinco centímetros a menos do que minhas medidas em todos os locais, menos no busto.

— Aqui você vai precisar de espaço para enchimento. Quase todo mundo enche. E é aqui que você guarda as gorjetas. Chamam de “caixa forte”.

Uma garota de cabelos negros e muito pó-de-arroz, vestindo uma fantasia verde, parou à porta.

— Meu rabinho está caído — ela disse, arrumando-o com um dedo. — Esses malditos clientes não param de puxar.

A chefe de guarda-roupa entregou-lhe um alfinete de fralda.

— E melhor arrumar um rabinho mais limpinho do que este, meu anjo. Vai arrumar um demérito se andar por aí com um rabinho maltrapilho destes.

Outras garotas apareceram pedindo fantasias, marcando o nome num caderninho preso ao balcão. Descobri que não era permitido sair do prédio com a fantasia e que cada uma pagava dois dólares e meio pela manutenção e lavagem da mesma. As Coelhinhas também pagavam cinco dólares por um par de meias-calças pretas e podiam receber deméritos se usassem meias rasgadas. A chefe de guarda-roupa me deu amostras de ambas as fantasias e me disse para mandar pintar os sapatos para que combinassem com a roupa. Perguntei se o clube pagava a pintura dos sapatos.

— Você enlouqueceu, meu bem? Esse lugar não dá dinheiro para nada. E certifique-se de que são saltos dez. Vai arrumar um demérito se usar mais baixos.

Eu me vesti e fui ver a Mamãe Coelha. Sheralee estava sentada à escrivaninha. Com os longos cabelos presos, parecia ter dezoito anos. Ela me entregou um formulário rosa-choque no qual estava escrito “Solicitação para Coelhinhas” e uma maletinha de plástico marrom com a miniatura de uma garota nua e THE PLAYBOY CLUB escrito em laranja.

— Esta é a bíblia da Coelhinha — ela me disse muito séria. — Quero que me prometa que vai passar o fim de semana inteiro estudando-a.

O formulário tinha quatro páginas. Eu já inventara grande parte das respostas para a minha biografia mas algumas das perguntas eram novas. Eu estava saindo com algum cliente do clube, se estivesse, qual o nome dele? Nenhum. Pretende sair com algum cliente? Não. Tem ficha na polícia? Não. Deixei o espaço destinado ao número de seguridade social em branco.

Subi um lance de escadas e entreguei o formulário à Srta. Shay. A sala de chão de cimento estava pontilhada de escrivaninhas. Mas a da Srta. Shay, como diretora de pessoal, ficava num canto. Ela vasculhou o formulário e tirou mais polaróides de mim.

— Traga o cartão de seguridade social amanhã, sem falta.

Eu me perguntei o que fazer sobre o fato de Marie Ochs não possuir um. Um homem atarracado de terno azul, camisa preta e gravata branca fez um gesto na direção de uma garota gorducha que se encontrava logo atrás dele.

— O Sr. Roma disse que eu a trouxesse aqui e eu ficarei muito grato por qualquer coisa que puder fazer por ela—ele disse, piscando.

— Em casos de extrema recomendação pessoal — disse a Srta. Shay com enorme indiferença. — Nós fazemos a entrevista imediatamente.

— Ela fez sinal para Sheralee que levou a garota para baixo.O homem pareceu aliviado.

Uma ruiva, acompanhada de dois homens, se aproximou mas a Srta. Shay pediu-lhes que aguardassem. O mais jovem deu um soquinho brincalhão no queixo da ruiva e sorriu.

— Você não tem com o que se preocupar, benzinho. — Ela o olhou com desdém e acendeu um cigarro.

Assinei um formulário de imposto de renda, vale refeição, um recibo referente aos vales, um formulário de solicitação de emprego, um outro de seguro e uma autorização para a divulgação de fotografias para qualquer finalidade — publicidade, editorial ou outra — que escolhesse a Playboy Clubs International. Um jovem em mangas de camisa, com aparência bastante apressada, entrou para dizer à Srta. Shay que os dois homens que trabalhavam no porão iam pedir demissão. Eles haviam esperado receber 75 dólares por seis dias de trabalho e iam trabalhar apenas cinco por sessenta. Estavam descontentes e tinham famílias para sustentar.

-Não posso mudar coisa alguma — ela disse, secamente. — Eu me limito a pôr em prática as decisões do Sr. Roma.

A Srta. Shay grampeou duas fotos polaróides à minha solicitação de emprego e entregou-me os meus horários.

— Amanhã, irá ao Larry Matthews para lhe auxiliarem com a maquiagem. Este fim de semana é para estudar a bíblia da Coelhinha e marquei um horário na segunda para você fazer um exame médico.— Ela chegou para frente e disse em tom de confidência:—Um exame completo. Segunda-feira é o dia da palestra da Mamãe Coelha e do Papai Coelho. Terça-feira é dia de Escola de Coelhinhas e quarta você treinará no próprio bar.

Eu perguntei se a consulta podia ser feita com meu próprio médico.

— Não. Você precisa ir ao nosso médico para um exame especial. É obrigatório para todas as Coelhinhas.

A Srta. Shay me mandou assinar um último formulário, uma requisição para que uma cópia do registro do nascimento de Marie Ochs fosse enviada para o Playboy Club. Eu o assinei, esperando que o estado do Michigan demorasse um pouco para descobrir que Marie Ochs não existia.

— Enquanto isso, vou precisar ver sua certidão de nascimento. Não podemos permitir que trabalhe sem que a vejamos. Concordei em enviar uma carta urgente para casa para que a enviassem.

É claro que não me permitiriam servir bebidas alcoólicas ou trabalhar à noite sem provar que era maior. Por que não pensei nisso antes? Bem, o futuro de Marie talvez fosse curto mas talvez ela conseguisse ao menos terminar a Escola de Coelhinhas.

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QUARTA-FEIRA, DIA 30
30/01/1963

Cheguei ao clube, pontualmente, às seis e meia e os negócios pareciam estar a todo vapor. Os clientes faziam fila, na neve, para entrar e vários transeuntes encontravam-se do lado de fora, com o rosto colado na vidraça. O ascensorista, um porto-riquenho bonito com jeitão de Rodolfo Valentino, me enfiou no elevador com dois carregadores negros uniformizados, cinco clientes de meia-idade, duas Coelhinhas a caráter e uma matrona robusta vestindo vison. Paramos no sexto andar.

— É aqui que eu fico? — perguntou a matrona.

— É claro, amorzinho — disse o ascensorista. — Se quiser virar Coelhinha.

Risos.

Olhei ao meu redor. Iluminação suave e tapetes macios haviam sido substituídos por blocos de cimento sem pintura e lâmpadas penduradas dos bocais. Havia uma porta marcada OELHINHAS; dava para ver o contorno onde antes houvera um “C”. Um aviso, escrito à mão num pedaço de cartolina rasgada, dizia: BATAM!! Por favor, meninas. Dá para cooperar?!! Passei pela porta e entrei num corredor iluminado e cheio.

Duas garotas passaram por mim. Uma vestia apenas a calcinha de um biquíni e a outra vestia meias arrastão de trama delicada e saltos altos lilás. Ambas entraram correndo na sala de figurinos à minha direita, berraram seus nomes, pegaram seus uniformes e voltaram correndo. Perguntei à responsável pela Srta. Burgess.

— Querida, acabamos de lhe entregar um presente de despedida.

Outras quatro garotas saltitaram sala adentro pedindo suas fantasias, golas, punhos e rabinhos. Vestiam meias-calças e salto alto e nada da cintura para cima. Uma delas parou para examinar o quadro no qual havia uma lista de “Coelhinha da Semana”.

Dirigi-me à outra extremidade do corredor. Dava para um camarim enorme cheio de armários de metal e diversas fileiras de mesas. Havia bilhetes colados aos espelhos (“Alguém quer trabalhar no Nível B no sábado?” e “Vou dar um festão na quarta em Washington Square, todas as Coelhinhas serão bem-vindas”). Havia cosméticos espalhados pelas bancadas e três garotas sentavam-se lado a lado colocando cílios postiços com uma concentração de iogue. Parecia uma caricatura do camarim de artistas de teatro de revista.

Uma garota de cabelos muito ruivos, pele muito branca e uma fantasia de Coelhinha de cetim preto deu as costas para mim e aguardou. Entendi que queria que eu puxasse seu zíper, uma tarefa que levou vários minutos de puxa e estica. Era uma garota grandalhona, de aparência um tanto rude, mas a voz que me agradeceu era pequenininha como a de uma criança. Judy Holliday não poderia ter feito melhor. Perguntei a ela a respeito da Srta. Burgess.

— Sei. Ela está no escritório — disse Vozinha de Bebê indicando uma porta de madeira com uma portinhola de vidro. — Só que a nova Mamãe Coelha é Sheralee.

Através do vidro pude ver duas garotas, uma loura e uma morena. Ambas pareciam ter vinte e poucos anos e não eram nada parecidas com a matrona do prospecto. Vozinha de Bebê puxou e esticou mais um pouco.

—Este uniforme não é o meu — explicou. — É por isso que está difícil de colocá-lo. — Ela se afastou estalando os dedos e cantarolando baixinho.

A morena saiu do escritório e se apresentou como a Mamãe Coelha, Sheralee. Eu disse que a confundira com uma Coelhinha.

— Cheguei a trabalhar para o clube quando inaugurou no mês passado — disse. — Mas agora vou substituir a Srta. Burgess. — Ela indicou a loura que experimentava um conjunto bege de três peças, provavelmente seu presente de despedida. — Terá de aguardar um instante, querida.

Eu me sentei.

Às sete eu já tinha assistido a três meninas eriçarem os cabelos até parecerem algodão doce e outras quatro encherem o sutiã com lenços de papel. Até às 19:15, eu já havia conversado com outras duas candidatas a Coelhinha, uma bailarina e uma modelo de meio expediente do Texas. Às 19:30 testemunhei a maior crise da vida de uma Coelhinha que enviara a fantasia para a lavanderia com a aliança de noivado presa com um alfinete pelo lado de dentro. Às 19:40 a Srta. Shay subiu para avisar que “Não há mais ninguém além de Marie”. Às oito eu estava certa de que ela esperava pelo gerente do clube para que ele dissesse que haviam descoberto minha verdadeira identidade. Às 20:15 finalmente fui chamada e estava nervosa além da conta.

Esperei enquanto Sheralee olhava minha ficha.

— Você não tem cara de 24 anos.

Bem, acabou por aqui, pensei.

— Parece bem mais jovem.

Sorri, incrédula. Ela tirou diversas polaróides de mim.

— É para os arquivos — explicou. Ofereci a história que eu criara é datilografara com tanto esmero mas ela a devolveu sem nem olhar.

— Não gostamos que nossas garotas tenham histórias — ela disse com firmeza. — Só queremos que você se adeque à imagem da Coelhinha. — Ela me mandou para a sala de figurinos.

Perguntei se devia vestir a malha.

-— Não perca tempo com isso — disse Sheralee. — Queremos ver a imagem da Coelhinha.

A chefe de guarda-roupa mandou que eu me despisse e começou a procurar um uniforme do meu tamanho. Uma garota entrou às pressas com uma fantasia nas mãos, berrando por ela como um soldado ferido talvez pedisse auxílio médico.

— Estourei o zíper — ela chorava. — Espirrei!

— E a terceira vez esta semana — disse a chefe de guarda-roupas.

— Parece até epidemia.

A garota se desculpou, encontrou outra fantasia e saiu.

Perguntei se um espirro realmente podia romper uma fantasia.

— E claro que sim — ela assegurou. — Garotas resfriadas normalmente precisam ser substituídas.

Ela me deu um uniforme de cetim azul. Estava tão apertado que o zíper prendeu na minha pele quando ela foi fechá-lo. Ela me mandou segurar a respiração enquanto tentava outra vez. Após conseguir deu um passo atrás para me examinar com olhos críticos. A fantasia era tão cavada que expunha meu quadril, assim como dez centímetros de bumbum branco. As barbatanas da cintura teriam feito Scarlett O’Hara desmaiar e a estrutura como um todo fora desenhada para puxar todas as carnes do corpo na direção dos seios. Eu estava certa de que seria perigosíssimo me abaixar.

— Nada mal — declarou a chefe de guarda-roupa e pôs-se a enfiar um imenso saco plástico na parte de cima da fantasia. Colocou uma faixa com orelhinhas de coelha em torno de minha cabeça e um semicírculo de material macio preso com um gancho no local mais arrebitado da parte traseira da fantasia. — Muito bem, querida. Agora coloque os saltos e vá mostrar a Sheralee. Olhei no espelho e a imagem da Coelhinha olhou para mim.

— Você está uma graça — disse Sheralee. — Encoste naquela parede e sorria bem bonito para ver o passarinho.—Ela tirou várias outras fotos com a polaróide.

A ruiva com voz de bebê entrou para avisar que ainda não encontrara uma fantasia que coubesse. Uma minúscula lourinha vestindo cetim lilás tirou o rabinho e se empoleirou na mesa.

— Olha — começou — , não ligo para os deméritos, já recebi cinco. Mas eu não ganho pontos por trabalhar horas extras? Sheralee pareceu desconcertada e dirigiu-se a Voz de Bebê:

— As garotas novas acham que as garotas de Chicago recebem tratamento especial e as mais antigas não treinam as novas.

—Deixa que eu treino estas pestinhas — disse Voz de Bebê. Mas me arruma uma fantasia.

Eu me vesti e esperei. E prestei atenção:

— Ele me deu trinta pratas e eu só fiz comprar cigarros para ele.

— Abaixa aí, meu docinho, e se enfia nesta fantasia.

— Ah, sei lá. Acho que ele fabrica Leite de Magnésia ou coisa parecida.

— Você sabia que tem gente que comete suicídio com estes sacos plásticos?

— Aí o babaca pede Cortinas de Renda. Alguém lá já ouviu falar em Cortinas de Renda?

— Eu disse a ele que nossos rabos eram de asbesto e ele quis queimar o meu para ver se era verdade.

— Semana passada ganhei trinta pratas de gorjeta. Grande coisa.

Sheralee me chamou de volta ao escritório.

— Então você quer ser Coelhinha — ela disse.

— Oh, sim. Gostaria muito — respondi.

— Bem… — Ela fez uma pausa significativa. — Nós também queremos que seja!

Fiquei perplexa. Não haveria mais entrevistas? Investigações?

— Chegue amanhã às três. Vamos tirar as medidas e pedir para que assine algumas coisas. — Eu sorri e senti uma exultação tola.

Descendo as escadas e subindo Fifth Avenue. Saltitante eu vou, sou uma Coelhinha!

SÁBADO, 26
26/01/1963

Hoje vesti as roupas mais teatrais que pude encontrar, enfiei a malha numa bolsinha e caminhei até o Playboy Club. E impossível não vê-lo. O discreto prédio de escritórios e a galeria de arte que ocupavam o local foram transformados num reluzente retângulo de vidro. O interior acarpetado de laranja é claramente visível, de fora, com uma moderníssima escadaria flutuante espiralando clube acima pelo centro. O efeito geral é alegre e surpreendente.

Atravessei em direção ao clube onde um homem de meia-idade, vestindo uniforme de guarda particular, sorriu e chamou:

– Pst, pst, pst, pst, Coelhinha… — Ele ergueu o dedão e apontou para a porta de vidro à esquerda. — As entrevistas são lá embaixo, no Playmate Bar.

O interior do clube estava iluminado com tal dramaticidade que levei alguns segundos para me dar conta de que estava fechado e vazio. Desci uma pequena escadaria e fui cumprimentada por uma tal Srta. Shay, uma mulher magra, de seus trinta anos, que encontrava-se atrás de uma escrivaninha no bar escuro.

— Coelhinha? —perguntou, asperamente. — Sente-se ali, preencha este formulário e tire o casaco. — Pude ver que duas das mesas já estavam ocupadas por outras garotas curvadas sobre o lápis. Olhei para elas com curiosidade. Eu chegara bem no meio do horário de entrevistas, esperando ver o maior número possível de candidatas, mas havia apenas três. — Tire o casaco — a Srta. Shay repetiu. Ela me examinou atentamente enquanto eu o fazia. Uma das garotas se levantou e caminhou até a escrivaninha, os saltos altos de acrílico estalando contra seus calcanhares, emitindo segurança e charme.

— Me diga uma coisa — ela disse. — Você vai querer as medidas com ou sem sutiã?

— Com — respondeu a Srta. Shay.

— Mas eu sou maior sem — a garota contrapôs.

— Está certo — disse a Srta. Shay, um tanto enfadada. — Sem.

Outras duas garotas desceram as escadas. Tinham uma aparência de frescor, não usavam maquiagem.

— Coelhinhas? — indagou a Srta. Shay.

— Não exatamente — disse uma, mas a outra pegou uma ficha. Os cabelos longos e os mocassins denunciavam o status de universitárias.

O formulário de solicitação de emprego era curto: endereço, telefone, medidas, idade e os três últimos empregos. Terminei de preenchê-lo e resolvi ganhar tempo lendo um prospecto intitulado SEJA COELHINHA DO PLAYBOY CLUB! O folheto continha, ern sua maioria, fotos: uma foto em grupo mostrava Coelhinhas “escolhidas de todos os cantos dos Estados Unidos” rodeando “o presidente do Playboy Club e editor da revista Playboy, Hugh M. Hefner”; um close de uma Coelhinha servindo um drinque a Tony Curtis “um devoto do Playboy Club que em breve estrelará um filme de Hugh M. Hefner intitulado, apropriadamente, Playboy”; duas Coelhinhas sorridentes ao lado de Hugh M. Hefner no “Playboy Show, exibido em cadeia nacional”; Coelhinhas distribuindo exemplares da revista Playboy num hospital para veteranos de guerra “em um dos inúmeros projetos comunitários dignos dos quais participam as Coelhinhas”; uma Coelhinha loura, de pé, diante de uma senhora de aparência maternal, a “Mamãe Coelha”, oferecendo “conselhos pessoais”; e na última página uma garota de biquíni, agachada no convés de um iate com a bandeira com o coelhinho da Playboy. O texto: “Quando você se tornar uma Coelhinha, seu mundo será alegre, divertido e sempre excitante”. Citava um salário médio de duzentos dólares por semana.

Mais uma garota desceu as escadas. Ela usava óculos de armação azul e um casaco muito menor do que ela. Eu a observei enquanto perguntava, nervosa, à Srta. Shay se o clube aceitava garotas de dezoito anos.

— É claro que sim — respondeu a Srta. Shay. — Só não podem trabalhar no turno da meia-noite.

Entregou uma ficha para a garota, olhou as pernas gorduchas e não pediu que tirasse o casaco. Mais duas garotas entraram no bar, uma vestindo legging rosa e a outra legging roxo.

— Nossa, esse lugar é um estouro — disse Rosa.

— Se achou isso aqui um estouro, devia ver a casa de Hugh Hefner em Chicago — disse Roxa. A Srta. Shay olhou para elas com aprovação.

— Não tenho telefone — disse Armação Azul com tristeza. — Posso dar o telefone do meu tio? Ele também mora no Brooklyn.

— Pode, então — disse a Srta. Shay. Ela pediu para que me aproximasse, indicou um local a uns três metros de sua escrivaninha e pediu para que ficasse ereta. Fiquei.

— Eu quero tanto ser coelhinha — disse Armação Azul. — Li a respeito disso numa revista, lá na escola.
A Srta. Shay me perguntou se eu realmente tinha 24 anos.

— Está muito velha — ela avisou. Disse a ela ter achado que passaria por um triz. Ela concordou com a cabeça.

— Meu tio passa o dia inteiro fora — disse a garota —, mas eu irei para a casa dele e passarei o dia inteiro ao lado do telefone.

— Faça isso então, querida — disse a Srta. Shay e virou-se para mim: – Tomei a liberdade de marcar uma hora para você na quarta- feira às seis e meia. Entre pela entrada de serviço e vá até o sexto andar. Procure a Srta. Burgess, a Mamãe Coelha. — Concordei e ela acrescentou: — Você tem certeza de que não se inscreveu antes? Uma outra Marie Ochs veio aqui ontem. Fiquei perplexa. Como poderia Marie ter escapado das páginas de meu caderno? Eu tive uma fantasia de trinta segundos baseada em Pigmalião. Ou será que havia uma outra Marie Ochs? Possível era, mas não provável. Decidi partir para a valentia.

— Que esquisito — murmurei. — Deve haver algum engano.

A Srta. Shay deu de ombros e sugeriu que eu trouxesse um maiô ou uma malha na quarta.

— Posso ligar para cá? — perguntou Armação Azul.

— Não faça isso, querida — disse a Srta. Shay. — Deixe que nós ligamos para você.

Deixei o clube preocupada com a expectativa de vida de Marie Ochs. Será que eles descobririam tudo? Será que eles já sabiam? Quando cheguei à metade do quarteirão, encontrei as duas universitárias. Estavam encostadas num prédio abraçando o próprio corpo, às gargalhadas. E de repente eu me senti bem melhor a respeito de tudo aquilo. Tudo, talvez, menos imaginar Armação Azul, em estado de alerta, sentada ao lado do telefone do tio.

SEXTA-FEIRA, 25
25/01/1963

Passei a tarde inteira inventando uma história pessoal para Marie. Compartilhamos o mesmo apartamento, o mesmo telefone e as mesmas medidas. Embora ela seja quatro anos mais nova do que eu (eu já passei do limite de idade para ser Coelhinha), Marie e eu comemoramos nossos aniversários no mesmo dia e estudamos na mesma escola e na mesma faculdade. Mas ela não se deixou escravizar pelos estudos — não, não Marie. Depois de um ano ela me largou, me empurrando pelo caminho que me levaria a um bacharelado, e embarcou num vôo charter para a Europa. Ela não tinha um centavo, mas curtos períodos trabalhando como garçonete em Londres, como dançarina em Paris e secretária em Genebra foram o bastante para bancar seus verões de rata de praia e suas outras escapulidas. Ela voltou para Nova York no ano passado e trabalhou temporariamente como secretária. Três amigos em comum concordaram em dar fortes recomendações pessoais. Todos que a conhecem a adoram.

Amanhã é o grande dia. Marie sairá deste caderno pela primeira vez e entrará no mundo real. Estou de saída para comprar uma malha para ela.

QUINTA-FEIRA, 24 DE JANEIRO DE 1963
24/01/1963

Decidi que me chamarei Marie Catherine Ochs. Trata-se, que meus antepassados me perdoem, de um sobrenome de família. É do meu ramo da família e conheço bem suas origens européias. Além do mais soa quadrado demais para ser falso.