SÁBADO, 26

Hoje vesti as roupas mais teatrais que pude encontrar, enfiei a malha numa bolsinha e caminhei até o Playboy Club. E impossível não vê-lo. O discreto prédio de escritórios e a galeria de arte que ocupavam o local foram transformados num reluzente retângulo de vidro. O interior acarpetado de laranja é claramente visível, de fora, com uma moderníssima escadaria flutuante espiralando clube acima pelo centro. O efeito geral é alegre e surpreendente.

Atravessei em direção ao clube onde um homem de meia-idade, vestindo uniforme de guarda particular, sorriu e chamou:

– Pst, pst, pst, pst, Coelhinha… — Ele ergueu o dedão e apontou para a porta de vidro à esquerda. — As entrevistas são lá embaixo, no Playmate Bar.

O interior do clube estava iluminado com tal dramaticidade que levei alguns segundos para me dar conta de que estava fechado e vazio. Desci uma pequena escadaria e fui cumprimentada por uma tal Srta. Shay, uma mulher magra, de seus trinta anos, que encontrava-se atrás de uma escrivaninha no bar escuro.

— Coelhinha? —perguntou, asperamente. — Sente-se ali, preencha este formulário e tire o casaco. — Pude ver que duas das mesas já estavam ocupadas por outras garotas curvadas sobre o lápis. Olhei para elas com curiosidade. Eu chegara bem no meio do horário de entrevistas, esperando ver o maior número possível de candidatas, mas havia apenas três. — Tire o casaco — a Srta. Shay repetiu. Ela me examinou atentamente enquanto eu o fazia. Uma das garotas se levantou e caminhou até a escrivaninha, os saltos altos de acrílico estalando contra seus calcanhares, emitindo segurança e charme.

— Me diga uma coisa — ela disse. — Você vai querer as medidas com ou sem sutiã?

— Com — respondeu a Srta. Shay.

— Mas eu sou maior sem — a garota contrapôs.

— Está certo — disse a Srta. Shay, um tanto enfadada. — Sem.

Outras duas garotas desceram as escadas. Tinham uma aparência de frescor, não usavam maquiagem.

— Coelhinhas? — indagou a Srta. Shay.

— Não exatamente — disse uma, mas a outra pegou uma ficha. Os cabelos longos e os mocassins denunciavam o status de universitárias.

O formulário de solicitação de emprego era curto: endereço, telefone, medidas, idade e os três últimos empregos. Terminei de preenchê-lo e resolvi ganhar tempo lendo um prospecto intitulado SEJA COELHINHA DO PLAYBOY CLUB! O folheto continha, ern sua maioria, fotos: uma foto em grupo mostrava Coelhinhas “escolhidas de todos os cantos dos Estados Unidos” rodeando “o presidente do Playboy Club e editor da revista Playboy, Hugh M. Hefner”; um close de uma Coelhinha servindo um drinque a Tony Curtis “um devoto do Playboy Club que em breve estrelará um filme de Hugh M. Hefner intitulado, apropriadamente, Playboy”; duas Coelhinhas sorridentes ao lado de Hugh M. Hefner no “Playboy Show, exibido em cadeia nacional”; Coelhinhas distribuindo exemplares da revista Playboy num hospital para veteranos de guerra “em um dos inúmeros projetos comunitários dignos dos quais participam as Coelhinhas”; uma Coelhinha loura, de pé, diante de uma senhora de aparência maternal, a “Mamãe Coelha”, oferecendo “conselhos pessoais”; e na última página uma garota de biquíni, agachada no convés de um iate com a bandeira com o coelhinho da Playboy. O texto: “Quando você se tornar uma Coelhinha, seu mundo será alegre, divertido e sempre excitante”. Citava um salário médio de duzentos dólares por semana.

Mais uma garota desceu as escadas. Ela usava óculos de armação azul e um casaco muito menor do que ela. Eu a observei enquanto perguntava, nervosa, à Srta. Shay se o clube aceitava garotas de dezoito anos.

— É claro que sim — respondeu a Srta. Shay. — Só não podem trabalhar no turno da meia-noite.

Entregou uma ficha para a garota, olhou as pernas gorduchas e não pediu que tirasse o casaco. Mais duas garotas entraram no bar, uma vestindo legging rosa e a outra legging roxo.

— Nossa, esse lugar é um estouro — disse Rosa.

— Se achou isso aqui um estouro, devia ver a casa de Hugh Hefner em Chicago — disse Roxa. A Srta. Shay olhou para elas com aprovação.

— Não tenho telefone — disse Armação Azul com tristeza. — Posso dar o telefone do meu tio? Ele também mora no Brooklyn.

— Pode, então — disse a Srta. Shay. Ela pediu para que me aproximasse, indicou um local a uns três metros de sua escrivaninha e pediu para que ficasse ereta. Fiquei.

— Eu quero tanto ser coelhinha — disse Armação Azul. — Li a respeito disso numa revista, lá na escola.
A Srta. Shay me perguntou se eu realmente tinha 24 anos.

— Está muito velha — ela avisou. Disse a ela ter achado que passaria por um triz. Ela concordou com a cabeça.

— Meu tio passa o dia inteiro fora — disse a garota —, mas eu irei para a casa dele e passarei o dia inteiro ao lado do telefone.

— Faça isso então, querida — disse a Srta. Shay e virou-se para mim: – Tomei a liberdade de marcar uma hora para você na quarta- feira às seis e meia. Entre pela entrada de serviço e vá até o sexto andar. Procure a Srta. Burgess, a Mamãe Coelha. — Concordei e ela acrescentou: — Você tem certeza de que não se inscreveu antes? Uma outra Marie Ochs veio aqui ontem. Fiquei perplexa. Como poderia Marie ter escapado das páginas de meu caderno? Eu tive uma fantasia de trinta segundos baseada em Pigmalião. Ou será que havia uma outra Marie Ochs? Possível era, mas não provável. Decidi partir para a valentia.

— Que esquisito — murmurei. — Deve haver algum engano.

A Srta. Shay deu de ombros e sugeriu que eu trouxesse um maiô ou uma malha na quarta.

— Posso ligar para cá? — perguntou Armação Azul.

— Não faça isso, querida — disse a Srta. Shay. — Deixe que nós ligamos para você.

Deixei o clube preocupada com a expectativa de vida de Marie Ochs. Será que eles descobririam tudo? Será que eles já sabiam? Quando cheguei à metade do quarteirão, encontrei as duas universitárias. Estavam encostadas num prédio abraçando o próprio corpo, às gargalhadas. E de repente eu me senti bem melhor a respeito de tudo aquilo. Tudo, talvez, menos imaginar Armação Azul, em estado de alerta, sentada ao lado do telefone do tio.

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Uma resposta

  1. Texto interessante, bem escrito…Abraço Giovana Faquere

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