QUARTA-FEIRA, DIA 30

Cheguei ao clube, pontualmente, às seis e meia e os negócios pareciam estar a todo vapor. Os clientes faziam fila, na neve, para entrar e vários transeuntes encontravam-se do lado de fora, com o rosto colado na vidraça. O ascensorista, um porto-riquenho bonito com jeitão de Rodolfo Valentino, me enfiou no elevador com dois carregadores negros uniformizados, cinco clientes de meia-idade, duas Coelhinhas a caráter e uma matrona robusta vestindo vison. Paramos no sexto andar.

— É aqui que eu fico? — perguntou a matrona.

— É claro, amorzinho — disse o ascensorista. — Se quiser virar Coelhinha.

Risos.

Olhei ao meu redor. Iluminação suave e tapetes macios haviam sido substituídos por blocos de cimento sem pintura e lâmpadas penduradas dos bocais. Havia uma porta marcada OELHINHAS; dava para ver o contorno onde antes houvera um “C”. Um aviso, escrito à mão num pedaço de cartolina rasgada, dizia: BATAM!! Por favor, meninas. Dá para cooperar?!! Passei pela porta e entrei num corredor iluminado e cheio.

Duas garotas passaram por mim. Uma vestia apenas a calcinha de um biquíni e a outra vestia meias arrastão de trama delicada e saltos altos lilás. Ambas entraram correndo na sala de figurinos à minha direita, berraram seus nomes, pegaram seus uniformes e voltaram correndo. Perguntei à responsável pela Srta. Burgess.

— Querida, acabamos de lhe entregar um presente de despedida.

Outras quatro garotas saltitaram sala adentro pedindo suas fantasias, golas, punhos e rabinhos. Vestiam meias-calças e salto alto e nada da cintura para cima. Uma delas parou para examinar o quadro no qual havia uma lista de “Coelhinha da Semana”.

Dirigi-me à outra extremidade do corredor. Dava para um camarim enorme cheio de armários de metal e diversas fileiras de mesas. Havia bilhetes colados aos espelhos (“Alguém quer trabalhar no Nível B no sábado?” e “Vou dar um festão na quarta em Washington Square, todas as Coelhinhas serão bem-vindas”). Havia cosméticos espalhados pelas bancadas e três garotas sentavam-se lado a lado colocando cílios postiços com uma concentração de iogue. Parecia uma caricatura do camarim de artistas de teatro de revista.

Uma garota de cabelos muito ruivos, pele muito branca e uma fantasia de Coelhinha de cetim preto deu as costas para mim e aguardou. Entendi que queria que eu puxasse seu zíper, uma tarefa que levou vários minutos de puxa e estica. Era uma garota grandalhona, de aparência um tanto rude, mas a voz que me agradeceu era pequenininha como a de uma criança. Judy Holliday não poderia ter feito melhor. Perguntei a ela a respeito da Srta. Burgess.

— Sei. Ela está no escritório — disse Vozinha de Bebê indicando uma porta de madeira com uma portinhola de vidro. — Só que a nova Mamãe Coelha é Sheralee.

Através do vidro pude ver duas garotas, uma loura e uma morena. Ambas pareciam ter vinte e poucos anos e não eram nada parecidas com a matrona do prospecto. Vozinha de Bebê puxou e esticou mais um pouco.

—Este uniforme não é o meu — explicou. — É por isso que está difícil de colocá-lo. — Ela se afastou estalando os dedos e cantarolando baixinho.

A morena saiu do escritório e se apresentou como a Mamãe Coelha, Sheralee. Eu disse que a confundira com uma Coelhinha.

— Cheguei a trabalhar para o clube quando inaugurou no mês passado — disse. — Mas agora vou substituir a Srta. Burgess. — Ela indicou a loura que experimentava um conjunto bege de três peças, provavelmente seu presente de despedida. — Terá de aguardar um instante, querida.

Eu me sentei.

Às sete eu já tinha assistido a três meninas eriçarem os cabelos até parecerem algodão doce e outras quatro encherem o sutiã com lenços de papel. Até às 19:15, eu já havia conversado com outras duas candidatas a Coelhinha, uma bailarina e uma modelo de meio expediente do Texas. Às 19:30 testemunhei a maior crise da vida de uma Coelhinha que enviara a fantasia para a lavanderia com a aliança de noivado presa com um alfinete pelo lado de dentro. Às 19:40 a Srta. Shay subiu para avisar que “Não há mais ninguém além de Marie”. Às oito eu estava certa de que ela esperava pelo gerente do clube para que ele dissesse que haviam descoberto minha verdadeira identidade. Às 20:15 finalmente fui chamada e estava nervosa além da conta.

Esperei enquanto Sheralee olhava minha ficha.

— Você não tem cara de 24 anos.

Bem, acabou por aqui, pensei.

— Parece bem mais jovem.

Sorri, incrédula. Ela tirou diversas polaróides de mim.

— É para os arquivos — explicou. Ofereci a história que eu criara é datilografara com tanto esmero mas ela a devolveu sem nem olhar.

— Não gostamos que nossas garotas tenham histórias — ela disse com firmeza. — Só queremos que você se adeque à imagem da Coelhinha. — Ela me mandou para a sala de figurinos.

Perguntei se devia vestir a malha.

-— Não perca tempo com isso — disse Sheralee. — Queremos ver a imagem da Coelhinha.

A chefe de guarda-roupa mandou que eu me despisse e começou a procurar um uniforme do meu tamanho. Uma garota entrou às pressas com uma fantasia nas mãos, berrando por ela como um soldado ferido talvez pedisse auxílio médico.

— Estourei o zíper — ela chorava. — Espirrei!

— E a terceira vez esta semana — disse a chefe de guarda-roupas.

— Parece até epidemia.

A garota se desculpou, encontrou outra fantasia e saiu.

Perguntei se um espirro realmente podia romper uma fantasia.

— E claro que sim — ela assegurou. — Garotas resfriadas normalmente precisam ser substituídas.

Ela me deu um uniforme de cetim azul. Estava tão apertado que o zíper prendeu na minha pele quando ela foi fechá-lo. Ela me mandou segurar a respiração enquanto tentava outra vez. Após conseguir deu um passo atrás para me examinar com olhos críticos. A fantasia era tão cavada que expunha meu quadril, assim como dez centímetros de bumbum branco. As barbatanas da cintura teriam feito Scarlett O’Hara desmaiar e a estrutura como um todo fora desenhada para puxar todas as carnes do corpo na direção dos seios. Eu estava certa de que seria perigosíssimo me abaixar.

— Nada mal — declarou a chefe de guarda-roupa e pôs-se a enfiar um imenso saco plástico na parte de cima da fantasia. Colocou uma faixa com orelhinhas de coelha em torno de minha cabeça e um semicírculo de material macio preso com um gancho no local mais arrebitado da parte traseira da fantasia. — Muito bem, querida. Agora coloque os saltos e vá mostrar a Sheralee. Olhei no espelho e a imagem da Coelhinha olhou para mim.

— Você está uma graça — disse Sheralee. — Encoste naquela parede e sorria bem bonito para ver o passarinho.—Ela tirou várias outras fotos com a polaróide.

A ruiva com voz de bebê entrou para avisar que ainda não encontrara uma fantasia que coubesse. Uma minúscula lourinha vestindo cetim lilás tirou o rabinho e se empoleirou na mesa.

— Olha — começou — , não ligo para os deméritos, já recebi cinco. Mas eu não ganho pontos por trabalhar horas extras? Sheralee pareceu desconcertada e dirigiu-se a Voz de Bebê:

— As garotas novas acham que as garotas de Chicago recebem tratamento especial e as mais antigas não treinam as novas.

—Deixa que eu treino estas pestinhas — disse Voz de Bebê. Mas me arruma uma fantasia.

Eu me vesti e esperei. E prestei atenção:

— Ele me deu trinta pratas e eu só fiz comprar cigarros para ele.

— Abaixa aí, meu docinho, e se enfia nesta fantasia.

— Ah, sei lá. Acho que ele fabrica Leite de Magnésia ou coisa parecida.

— Você sabia que tem gente que comete suicídio com estes sacos plásticos?

— Aí o babaca pede Cortinas de Renda. Alguém lá já ouviu falar em Cortinas de Renda?

— Eu disse a ele que nossos rabos eram de asbesto e ele quis queimar o meu para ver se era verdade.

— Semana passada ganhei trinta pratas de gorjeta. Grande coisa.

Sheralee me chamou de volta ao escritório.

— Então você quer ser Coelhinha — ela disse.

— Oh, sim. Gostaria muito — respondi.

— Bem… — Ela fez uma pausa significativa. — Nós também queremos que seja!

Fiquei perplexa. Não haveria mais entrevistas? Investigações?

— Chegue amanhã às três. Vamos tirar as medidas e pedir para que assine algumas coisas. — Eu sorri e senti uma exultação tola.

Descendo as escadas e subindo Fifth Avenue. Saltitante eu vou, sou uma Coelhinha!

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