QUINTA-FEIRA, DIA 31

Agora tenho duas fantasias de Coelhinha: uma de cetim laranja e outra azul-rei. A escolha de cores e a qualidade do cetim são quase as mesmas dos catálogos de material esportivo. Os corpinhos das fantasias, pré-cortados para caber em corpos e seios de tamanhos variados, são experimentados na mesma hora. Aguardei, de pé, no piso de cimento, com os pés descalços e uma calcinha de biquíni. A chefe de guarda-roupa me deu um tapetinho de banheiro.

— Não dá para deixar uma Coelhinha novinha em folha pegar gripe — foi o que disse. Perguntei se ela poderia seguir a linha do meu biquíni; a fantasia que eu experimentara no dia anterior era mais cavada do que qualquer uma que eu vira em fotografias. Ela riu. — Olha, querida, se você acha que aquela estava cavada, devia ver umas que usam por aqui.

A fantasia foi aparada e apertada até estar com cinco centímetros a menos do que minhas medidas em todos os locais, menos no busto.

— Aqui você vai precisar de espaço para enchimento. Quase todo mundo enche. E é aqui que você guarda as gorjetas. Chamam de “caixa forte”.

Uma garota de cabelos negros e muito pó-de-arroz, vestindo uma fantasia verde, parou à porta.

— Meu rabinho está caído — ela disse, arrumando-o com um dedo. — Esses malditos clientes não param de puxar.

A chefe de guarda-roupa entregou-lhe um alfinete de fralda.

— E melhor arrumar um rabinho mais limpinho do que este, meu anjo. Vai arrumar um demérito se andar por aí com um rabinho maltrapilho destes.

Outras garotas apareceram pedindo fantasias, marcando o nome num caderninho preso ao balcão. Descobri que não era permitido sair do prédio com a fantasia e que cada uma pagava dois dólares e meio pela manutenção e lavagem da mesma. As Coelhinhas também pagavam cinco dólares por um par de meias-calças pretas e podiam receber deméritos se usassem meias rasgadas. A chefe de guarda-roupa me deu amostras de ambas as fantasias e me disse para mandar pintar os sapatos para que combinassem com a roupa. Perguntei se o clube pagava a pintura dos sapatos.

— Você enlouqueceu, meu bem? Esse lugar não dá dinheiro para nada. E certifique-se de que são saltos dez. Vai arrumar um demérito se usar mais baixos.

Eu me vesti e fui ver a Mamãe Coelha. Sheralee estava sentada à escrivaninha. Com os longos cabelos presos, parecia ter dezoito anos. Ela me entregou um formulário rosa-choque no qual estava escrito “Solicitação para Coelhinhas” e uma maletinha de plástico marrom com a miniatura de uma garota nua e THE PLAYBOY CLUB escrito em laranja.

— Esta é a bíblia da Coelhinha — ela me disse muito séria. — Quero que me prometa que vai passar o fim de semana inteiro estudando-a.

O formulário tinha quatro páginas. Eu já inventara grande parte das respostas para a minha biografia mas algumas das perguntas eram novas. Eu estava saindo com algum cliente do clube, se estivesse, qual o nome dele? Nenhum. Pretende sair com algum cliente? Não. Tem ficha na polícia? Não. Deixei o espaço destinado ao número de seguridade social em branco.

Subi um lance de escadas e entreguei o formulário à Srta. Shay. A sala de chão de cimento estava pontilhada de escrivaninhas. Mas a da Srta. Shay, como diretora de pessoal, ficava num canto. Ela vasculhou o formulário e tirou mais polaróides de mim.

— Traga o cartão de seguridade social amanhã, sem falta.

Eu me perguntei o que fazer sobre o fato de Marie Ochs não possuir um. Um homem atarracado de terno azul, camisa preta e gravata branca fez um gesto na direção de uma garota gorducha que se encontrava logo atrás dele.

— O Sr. Roma disse que eu a trouxesse aqui e eu ficarei muito grato por qualquer coisa que puder fazer por ela—ele disse, piscando.

— Em casos de extrema recomendação pessoal — disse a Srta. Shay com enorme indiferença. — Nós fazemos a entrevista imediatamente.

— Ela fez sinal para Sheralee que levou a garota para baixo.O homem pareceu aliviado.

Uma ruiva, acompanhada de dois homens, se aproximou mas a Srta. Shay pediu-lhes que aguardassem. O mais jovem deu um soquinho brincalhão no queixo da ruiva e sorriu.

— Você não tem com o que se preocupar, benzinho. — Ela o olhou com desdém e acendeu um cigarro.

Assinei um formulário de imposto de renda, vale refeição, um recibo referente aos vales, um formulário de solicitação de emprego, um outro de seguro e uma autorização para a divulgação de fotografias para qualquer finalidade — publicidade, editorial ou outra — que escolhesse a Playboy Clubs International. Um jovem em mangas de camisa, com aparência bastante apressada, entrou para dizer à Srta. Shay que os dois homens que trabalhavam no porão iam pedir demissão. Eles haviam esperado receber 75 dólares por seis dias de trabalho e iam trabalhar apenas cinco por sessenta. Estavam descontentes e tinham famílias para sustentar.

-Não posso mudar coisa alguma — ela disse, secamente. — Eu me limito a pôr em prática as decisões do Sr. Roma.

A Srta. Shay grampeou duas fotos polaróides à minha solicitação de emprego e entregou-me os meus horários.

— Amanhã, irá ao Larry Matthews para lhe auxiliarem com a maquiagem. Este fim de semana é para estudar a bíblia da Coelhinha e marquei um horário na segunda para você fazer um exame médico.— Ela chegou para frente e disse em tom de confidência:—Um exame completo. Segunda-feira é o dia da palestra da Mamãe Coelha e do Papai Coelho. Terça-feira é dia de Escola de Coelhinhas e quarta você treinará no próprio bar.

Eu perguntei se a consulta podia ser feita com meu próprio médico.

— Não. Você precisa ir ao nosso médico para um exame especial. É obrigatório para todas as Coelhinhas.

A Srta. Shay me mandou assinar um último formulário, uma requisição para que uma cópia do registro do nascimento de Marie Ochs fosse enviada para o Playboy Club. Eu o assinei, esperando que o estado do Michigan demorasse um pouco para descobrir que Marie Ochs não existia.

— Enquanto isso, vou precisar ver sua certidão de nascimento. Não podemos permitir que trabalhe sem que a vejamos. Concordei em enviar uma carta urgente para casa para que a enviassem.

É claro que não me permitiriam servir bebidas alcoólicas ou trabalhar à noite sem provar que era maior. Por que não pensei nisso antes? Bem, o futuro de Marie talvez fosse curto mas talvez ela conseguisse ao menos terminar a Escola de Coelhinhas.

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