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SEXTA, DIA 22
22/02/1963

Mas foi exatamente a mesma coisa:

CHEFE DE SETOR: “AS suas mesas são aquelas: quatro de quatro e três de dois”.
CLIENTE: “Se você é minha Coelhinha, posso levá-la para casa?”
BARMAN: “Eles não param de mudar o tamanho das doses: sobe, desce, desce e sobe. É de enlouquecer”.
COELHINHA: “Trabalhei na festa.privé da LoLo Cola e ganhei seis latas de brinde. Grande coisa”.
CLIENTE: “Estou no Hotel New Yorker. Quarto 625. Você vai lembrar?”
HOMEM: “Se mocinhas fossem grama, o que seriam os mocinhos?”
COELHINHA: “Deixa eu ver… Cortadores de grama?”
HOMEM: “Não. Gafanhotos!”

Aviso na parede da despensa:
ESTE É O SEU LAR. NÃO JOGUE BORRA DE CAFÉ NA PIA.

SERVENTE: “Tem dinheiro saindo pelos lados da sua fantasia, meu anjo”,
COELHINHA: “Ele é mesmo um cavalheiro. Trata você bem, quer tenha dormido com ele ou não”.

Eram quatro da manhã quando entrei na Sala da Coelhinha para tirar a fantasia. Uma loura bonita juntava duas cadeiras para dormir. Ela prometera substituir outra garota no almoço, depois de oito horas no bar, e não teria tempo de ir até em casa. Perguntei por que ela fazia uma coisa dessas.

— Bem, a grana não é ruim. Ganhei duzentos dólares na semana passada.

Finalmente eu encontrara alguém que ganhava o mínimo do salário prometido. Mas para isso ela trabalhava sem parar.

No escritório de Sheralee havia um quadro com uma lista das cidades onde seriam inaugurados os próximos clubes (Pittsburgh, Boston, Dallas e Washington) e um papel amarelo intitulado O QUE É UMA COELHINHA?

“Uma Coelhinha do clube”, dizia o texto, “assim como a Coelhinha da revista é… linda, atraente… Nós faremos o que estiver em nosso poder para transformar você, Coelhinha, na garota mais invejada da América por trabalhar no lugar mais glamouroso e excitante do mundo.”

Entreguei minha fantasia pela última vez.

— Tchauzinho, querida — despediu-se a loura. — Te vejo nos quadrinhos.

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QUINTA, DIA 21
21/02/1963

Quase uma semana se passou. Liguei para Sheralee para dizer que voltara para buscar algumas roupas mas que precisava pedir demissão. Ela me implorou para trabalhar no bar mais uma noite. Por algum motivo (será que eu aprenderia alguma coisa nova?) eu me peguei aceitando.

SEXTA, DIA 15
15/02/1963

A Sala de Almoço estava cheia de homens bebendo sem parar porque é sexta-feira. Carreguei pratos de rosbife e a alternativa especial de sexta-feira: truta. Coelhinha Gloria estava de pé, com uma bandeja cheia de xícaras esperando que a cafeteira fosse enchida.

— Sabe o que nós somos? — perguntou, indignada. — Garçonetesl

Sugeri que nos juntássemos ao sindicato.

— Sindicatos só servem para tirar o seu dinheiro e não deixar que você trabalhe dois turnos — disse Vozinha de Bebê.

A assistente de mágico estava servindo uma mesa ao lado da minha e concordava, sinceramente, com um cliente que dizia que nossas fantasias eram “tão inteligentes e realçam tão bem as formas femininas”. Ela tentava tanto fazer as coisas com “graça”, como mandava a bíblia, que não era nada eficiente como garçonete. Ao nos programar com o que era, nas palavras de uma outra Coelhinha, “um glamourzinho de merda”, o clube muitas vezes se prejudicava.

Foi meu último dia de almoços e isso me deixava muito contente. De alguma forma, os puxões nos rabinhos, as cantadas, os beliscões e os olhos esbugalhados eram bem mais deprimentes quando o sol brilhava além das paredes daquela sala sem janelas.

Encontrei Sheralee em seu escritório e contei a ela a história que eu escolhera porque deixava as portas abertas caso eu precisasse de mais informações: minha mãe estava doente e eu precisava passar algum tempo em casa.

— Justo agora que estamos com uma falta enorme de Coelhinhas! —ela exclamou, consternada, e perguntou quando eu estaria de volta.

Eu disse que não sabia, mas que ligaria. Ela me entregou o salário da primeira semana: 35,90 dólares pelas duas noites na Sala de Estar. Perguntei a respeito da primeira noite na chapelaria.

— O treinamento não é remunerado — ela disse. Protestei que não fora treinamento. — Vou falar com o contador — concordou, sem muita convicção.

QUARTA, DIA 13
13/02/1963

Completei a lista de enchimentos de decotes:

1. Lenços de papel
2. Sacos plásticos
3. Algodão
4. Rabos de Coelhinhas
5. Espuma
6. Lã de carneiro
7. Absorventes íntimos cortados ao meio
8. Lenços de seda
9. Meias de ginástica

Descobri também que não só podemos sair com clientes Número Um como com qualquer um a quem estes nos apresentem. Podemos sair também com quem quer que conheçamos nas festas de Vic Lownes. Mas, no entanto, há limites para esta pesquisa.

TERÇA, DIA 12
12/02/1963

Duas das minhas colegas da Escola da Coelhinha, Gloria e a assistente de mágico, juntaram-se a nós na Sala de Almoço. Peguei-me explicando como servir o rosbife e como convencer os clientes de que estava malpassado, bem-passado ou ao ponto, embora estivessem todos, na verdade, idênticos.

Era dia do aniversário de Abraham Lincoln e o movimento estava fraco. Ouvi a Coelhinha sem enchimento explicar que gostava de homens mais velhos porque “eles te dão dinheiro”.

— Saí uma vez com um velho que conheci no clube e arrumei mais duas Coelhinhas para os amigos dele. Sabe que ele me deu um cheque de cem dólares só porque foi com a minha cara?

A Coelhinha sem enchimento explicou também que um dos executivos da casa lhe havia dado setecentos dólares para comprar um vestido.

— Eu tinha quinhentos dólares e comprei um vestido de 1.200 -e ele me levou a uma festa vestindo o tal vestido.

Uma Coelhinha de cabelos escuros disse que conhecia o mesmo cara de Chicago.

— Você e todo mundo — disse a Coelhinha sem enchimento.

— Se você fosse contar todas as Coelhinhas que saíram com o cara…

A Coelhinha de cabelos escuros estava pensativa.

— Nós tivemos um caso muito louco durante três semanas. Foi loucura mesmo. Eu deveria saber que não ia dar em nada…

Todas as garotas acham que vai dar em alguma coisa — disse a Coelhinha sem enchimento em tom de consolo. — Mas nunca dá.

— Conversaram sobre o apartamento imenso do executivo, sobre sua fortuna e impulsos românticos. Ele me pareceu um exterminador.

Sem Enchimento se levantou para servir um cliente e a Coelhinha de cabelos escuros olhou para ela com desdém.

— Duvido que ele tenha dado setecentos dólares para ela – declarou com firmeza. — Ninguém arranca um centavo dele.