MANHÃ DE SEGUNDA, DIA 4

As onze fui ao consultório do médico indicado pelo clube, localizado num hotel da vizinhança. (“Vinte deméritos para quem faltar a uma hora marcada.”) A enfermeira me mandou preencher um histórico médico. “Você sabe que isto inclui um exame interno? Venho tentando conseguir que a Srta. Shay avise às moças.” Eu disse que sabia mas que não compreendia por que haveria de ser necessário. “E para seu próprio bem”, ela disse, indicando o caminho até uma sala que continha um armário de remédios, uma balança e uma mesa para exames ginecológicos. Vesti um roupão e aguardei. Pareceu-me que, ultimamente, eu vinha passando grande parte de meu tempo tirando a roupa, esperando, ou ambos.

A enfermeira voltou acompanhada do médico, um senhor robusto, de seus sessenta anos, com a pele rosada de um bebê.

— Então você vai ser Coelhinha—ele disse com animação. — Acabo de voltar de Miami. Bonito o clube de lá. Cheio de belíssimas Coelhinhas.

Eu estava prestes a perguntar se ele possuía uma franquia, e se percorria o país de costa à costa, mas ele me interrompeu para perguntar se eu estava gostando da vida de Coelhinha.

— Bem, é mais animado do que ser secretária — respondi, e ele me mandou sentar na beirada da mesa. Enquanto ele socava minhas costas e me auscultava, de repente me passou pela cabeça que todas as Coelhinhas de Nova York haviam se sentado naquele mesmo lugar.

— Agora vem a parte que todas as meninas detestam — disse ele, tirando sangue do meu braço para realizar um exame Wassermann.

Eu disse que um exame de sangue para determinar se alguém é portador de doenças venéreas me parecia um tanto sinistro.

— Não seja boba — disse ele. — Todos os funcionários têm de passar por isso. Pelo menos você sabe que todo mundo do clube é saudável. — Eu disse que o fato de serem ou não saudáveis não me afetava em coisa alguma e que eu tinha objeções quanto a ser submetida a tais exames. Silêncio. Ele me mandou ficar de pé para “poder ver se suas pernas são tortas”.

— Então está bem. Eu tenho de ser submetida ao Wassermann.

E o exame ginecológico? É exigido de todas as garçonetes do estado de Nova York?

— E qual é o problema? — indagou ele. — É de graça e para o bem de todo o mundo.

.— Como? — perguntei.

— Olhe — ele começou com impaciência —, nós sempre constatamos que as garotas que objecionam com mais veemência têm algum motivo… — Ele fez uma pausa carregada de significados ocultos.

Também me detive. Eu tinha duas escolhas: ir até o fim ou sair em sinal de protesto. Mas em sinal de protesto contra o quê?

De volta à recepção, a enfermeira me entregou um bilhete, que eu deveria entregar à Srta. Shay, dizendo que eu havia passado nos exames preliminares. Enquanto eu vestia o casaco, ela telefonou para o laboratório para que viessem buscar “um exame de sangue e um papanicolau”. Perguntei por que faziam estes exames mas nenhum de urina? Não era ele, afinal, o mais comum dos exames de laboratório?

— É para a sua proteção — disse ela com firmeza. — Além do mais, quem paga é o clube.

Na recepção do hotel fui até o telefone público para ligar para a Saúde Pública. Perguntei se exigiam que as garçonetes da cidade de Nova York fossem submetidas ao teste Wassermann.
— Não.

Então quais eram os exames médicos necessários?

— Nenhum — foi a resposta.

Anúncios

There are no comments on this post.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: