TARDE, SEGUNDA, DIA 4

A palestra da Mamãe Coelha acabou sendo uma conversa informal, e por diversas vezes interrompida, na salinha sem janela de Sheralee. Havia outras sete candidatas, duas das quais a caráter. Havia também uma loura de traços delicados, a modelo do Texas que eu já conhecera, uma garota enorme de cabelos muito longos que disse ser assistente de mágico, uma garota quadradona vestindo conjunto quadriculado, uma morena bonita que não tirava o casaco.

Em grande parte, Sheralee só fez repetir a bíblia das Coelhinhas, mas alguns pontos eram novos.

1. Devido à existência de um salário mínimo na cidade de Nova York, precisamos receber um salário de cinqüenta dólares por uma semana de quarenta horas. Recebemos gorjetas mas o clube fica com 50% dos primeiros trinta dólares pagos com cartão de crédito, 25 % dos totais de até sessenta dólares e 5% daí em diante. “Isso quer dizer metade de tudo que ganhamos”, sussurrou uma das meninas fantasiadas. “Mas quem é que ganha mais de trinta dólares por dia?”

2. Podemos ficar com todas as gorjetas que nos são dadas em espécie mas se indicarmos preferência por gorjetas em espécie, seremos demitidas.

3. “Não sei se vocês sabem o que quer dizer ‘média de bebida'”, disse Sheralee. Ela então pôs-se a explicar que se tratava do número de drinques por cliente. “Mas se vocês trabalharem bem, os clientes repetirão os pedidos e vocês recebem méritos pelo trabalho. Cem méritos é igual a 25 dólares.”

4. Se formos nos encontrar com maridos e namorados após o trabalho, devemos fazê-lo a duas quadras do clube. Os clientes não devem nos ver encontrando outros homens.

5. Não devemos jamais deixar dinheiro em nossos armários. Duas meninas foram demitidas recentemente porque foram pegas roubando.

6. Devido aos “problemas especiais de Nova York”, não podemos ser multadas em dinheiro pelos deméritos, assim, podemos compra-los de volta com méritos. “Se cem méritos é igual a 25 dólares”, perguntei, “não dá no mesmo?”. Sheralee disse que não.

7. Clientes Número Um recebem tratamento diferenciado. Por exemplo, devemos trazer-lhes telefone, bloco de papel e caneta imediatamente. A Playboy International então “absorve” seus gastos. Chaveiros com o número um são dados aos executivos de todos os clubes, a membros importantes da imprensa e a alguns outros VIPs. Podemos também dar-lhes nossos nomes ou sair com eles.

A assistente de mágico perguntou se era esperado que saíssemos com eles.

— É claro que não — respondeu Sheralee.

— Mas um dos chefes de seção ficou com raiva de mim porque eu não dei meu nome a um cliente Número Um. Expliquei que era casada mas ele disse que eu tinha de dar meu nome do mesmo jeito.

Sheralee disse que estava certa de que o chefe de setor se expressara mal.

— Você jamais precisará fazer o que não quer — ela disse com doçura.

8. O apartamento de Vic Lownes é usado para as festas promocionais da Playboy em Nova York, assim como a casa de Hugh Hefner é usada em Chicago. (“O Sr. Lownes administrava os clubes” explicou Sheralee. “Mas agora ele está ligado, basicamente, à revista.”) Quando formos a tais festas, não poderemos levar homens. “Nem mesmo nossos maridos?”, perguntou a assistente de mágico. “Homem algum. Absolutamente nenhum. Mas é claro que não precisam ir se não quiserem”, respondeu Sheralee.

Todas descemos à sala VIP para a palestra do Papai Coelho, mas antes uma Coelhinha parou na porta do escritório de Sheralee e gritou “Gloria!” Eu gelei. Depois de uma eternidade, a Coelhinha sentada a meu lado respondeu. Eu aprendi a responder quando me chamam de Marie. Agora preciso não reagir quando me chamam de Gloria.

Não havia Papai Coelho e sim duas séries de slides com uma narrativa gravada e um fundo musical de jazz. Uma das palestras falava, de forma muito generalizada, sobre as Coelhinhas. Não continha nada de novo, a não ser que quando os clientes tentassem forçar uma intimidade, devíamos dizer “Senhor, não é permitido pôr as mãos nas Coelhinhas”. A segunda parte da palestra do Papai Coelho era chamada “O Coquetel da Coelhinha”. Ensinava a encher bandejas, preencher comandas e colocar os drinques na mesa. A narrativa não estava sincronizada aos slides, a sala estava gelada e eu saí de lá com uma dor de cabeça de matar.

Sheralee disse que a Srta. Shay queria me ver. Meu coração ficou apertado.

O escritório principal continuava aquele caos iluminado com empadas fluorescentes mas a Srta. Shay parecia uma ilha de tranqüilidade. Ela me disse que eu precisaria de uma identidade para entrar e sair do prédio. Entreguei-lhe o bilhete do médico e meu número de seguridade social de verdade. Expliquei que perdera o cartão. Ela pareceu desconfiar mas aceitou o número.

Eu quis perguntar o porquê dos exames da manhã mas decidi esperar um pouco. Se eu chamasse atenção para mim mesma, talvez apenas lhe lembrasse que não entregara a certidão de nascimento. Disse a ela que meu arquivo estava completo, a não ser por uma abreugrafia, e saí da sala. É difícil crer que a eficientíssima Srta. Shay não me pegará logo logo. Mas vou ficando até me descobrirem.

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