NOITE, TERÇA, DIA 5

A sala das Coelhinhas estava um caos. Puxa daqui, puxa dali até a chefe de guarda-roupa fechar minha fantasia azul-rei. Desta vez ela permitiu que eu colocasse meu próprio enchimento e eu consegui me safar com apenas metade de um saco plástico. Coloquei a gola e prendi a gravatinha-borboleta e os punhos com abotoaduras de coelhinho. Meu crachá foi colocado num arranjo de fitas, tal qual uma medalha daquelas que põem em cavalos quando vencem corridas, e preso logo acima do quadril, à direita. Uma mudança no regulamento interno acabara de mudar os crachás do lado esquerdo para o direito. A chefe de guarda-roupa também me entregou uma jaqueta porque fazia menos de dez graus negativos e eu deveria me posicionar ao lado da porta de entrada. A tal jaqueta era um pedacinho de pele branca artificial que cobria os ombros mas deixava o decote cuidadosamente à mostra.

Fui até Sheralee para ser inspecionada.

— Você está uma graça — disse ela e me aconselhou a guardar o dinheiro que trouxera dentro da fantasia. — Tiraram coisas do armário de outras duas garotas. —Ela então acrescentou que eu deveria dizer ao chefe da portaria quanto eu trouxera em dinheiro. — Senão vão achar que você roubou gorjetas.

É que as Coelhinhas Garçonetes podiam guardar gorjetas em espécie (embora o clube ficasse com cinqüenta por cento das gorjetas das contas pagas com cartão de crédito), mas as Coelhinhas Chapeleiras não podiam ficar com gorjeta alguma. Em vez disso, elas recebiam doze dólares por oito horas de trabalho. Eu disse a ela que um salário de doze dólares por dia era bem menos do que os duzentos a trezentos dólares mencionados no anúncio.

— Ora meu anjo, você não vai trabalhar sempre na chapelaria — ela disse. — Assim que você começar a trabalhar nas mesas, da tudo no mesmo. Você vai ver.

Dei mais uma olhada no espelho. Uma criatura com cílios de dois centímetros, orelhas de cetim azul e seios que pareciam saltar do decote olhou para mim. Perguntei a Sheralee se precisávamos de tanto enchimento assim.

— É claro que sim — ela respondeu. — Quase todas as garotas enchem e enchem mais um pouco. É assim que uma Coelhinha deve ser.

A porta do elevador abriu no mezanino e fiz minha estréia profissional no Playboy Club. Estava cheíssimo, barulhento e muito mas muito escuro. Bem próximo de mim, havia um grupo de homens com crachás de uma mesma empresa na lapela.

— Olha só a minha Coelhinha — disse um deles, atirando os braços em torno do meu pescoço, como se fôssemos jogadores de futebol deixando o campo.

— Por favor, senhor — eu disse e balbuciei a frase mágica que aprendêramos na palestra do Papai Coelho. — Não é permitido pôr as mãos nas Coelhinhas. — Seus comparsas riram às gargalhadas.

— Aí meu velho, que bronca você levou, hein? — disse um deles. Puxou meu rabinho enquanto eu me afastava.

Com as frases da Coelhinha ecoando em minha mente desci as escadas em caracol, acarpetadas, que separavam o mezanino (“Sala de Estar, Piano Bar, o bufê está servido”) e o lobby (“Entreguem seus casacos e sentem-se imediatamente no bar”), separados da rua por uma vidraça de pé direito duplo. A alternativa seria uma escadaria larga ao fundo do lobby, mas ela também podia ser vista da rua. Todos nós, clientes e Coelhinhas, fazíamos parte de uma imensa vitrina. Fui ver o chefe do lobby.

— Olá, Coelhinha Marie — ele disse. — Como vão as coisas?

Respondi que tinha quinze dólares na fantasia.

— Pode deixar que eu me lembro — disse ele e tive a humilhante visão de uma fileira de Coelhinhas Chapeleiras tendo os bustos inspecionados.

Havia um paredão de homens impacientes aguardando na Chapelaria. A Coelhinha Chapeleira-chefe, uma lourinha importada de Chicago “para dar um jeito nas coisas”, me disse para pegar os tíquetes e gritar o número para os dois “cabideiros” que se encontravam atrás do balcão.

— Eu lhe dou meu número se você me der o seu — disse um senhor calvo, virando-se para a platéia, à espera de aplausos, depois de uma hora auxiliando homens com casacos, cachecóis e chapéus, o corre-corre aliviou o bastante para que a Coelhinha de Chicago conseguisse me ensinar como pregar números em lapelas com alfinetes ou enfiá-los no forro dos chapéus. Ela me ensinou mais algumas frases mágicas. “Muito obrigada, senhor. Aqui está seu tíquete.” “A Coelhinha de Informações encontra-se no andar de baixo, à sua direita.” “Eu sinto muito, não estamos autorizadas aguardar casacos de senhoras.” (A Chapelaria estava disponível para mulheres apenas se o clube não estivesse cheio e se os casacos não fossem de pele.) Ela enfatizou que eu deveria colocar todas as gorjetas numa caixinha presa à parede, sorrir com gratidão e jamais dizer ao cliente que a gorjeta ficava para o clube. Ela caminhou até a outra metade da chapelaria (“Os tíquetes azuis são na sala ao lado, senhor”) e mandou uma Coelhinha suíça, alta e grandalhona, substituí-la.

Atendemos a um pequeno grupo de clientes e conversamos um pouco. Voltei à minha constante preocupação de que alguém entraria, me reconheceria e gritaria “Gloria!” Se era verdade que uma repórter de jornal e outra de revista haviam tentado se tornar Coelhinhas e falharam, a gerência do clube devia estar de olhos bem abertos para tal possibilidade. Eu vira um número grande o suficiente de filmes de Sydney Greenstreet para me preocupar com a reação do clube. Se algum conhecido entrasse, eu teria de repetir “Deve haver algum engano” diversas vezes e esperar o melhor.

A turma do jantar foi chegando e logo vinte homens aguardavam. Trabalhávamos rapidamente, mas com tantos casacos entrando e saindo a coisa ficou confusa. Um cliente cambaleava atrás do balcão em busca de um chapéu perdido e outros dois reclamavam em voz alta que já esperavam há dez minutos. “Essa fila que se forma fora do Playboy Club é só porque tem gente esperando o casaco”, disse um. Um homem de terno azul de seda estendeu o braço para apertar meu rabo. Desviei e abri o casaco para que um senhor calvo, com o bolso cheio de esferográficas, pudesse vesti-lo. Ele o vestiu, de trás para frente, de forma a me abraçar. O cabideiro gritou com um pesado sotaque espanhol: “Deixe-a em paz” e o senhor o mandou calar a boca. Três mulheres com estolas de vison aguardavam seus maridos. Elas nos encaravam, não com inveja e sim com frieza, como se estivessem se comparando à Coelhinha suíça e a mim- Lá em cima, na parede oposta, uma câmera nos vigiava a todos, transmitindo a cena em telas embutidas, espalhadas pelas paredes do clube. Havia até uma tela acima da calçada. Um aviso dizia: “Esta câmera do circuito interno de TV transmitirá sua entrada para todo o clube » Sentia-me como se estivesse caminhando nua através das multidões e a única forma de recuperar minhas roupas seria passando nela escadaria da gaiola de vidro. A medida que mais homens estendiam casacos em minha direção, eu me virava para o cabideiro para pedir mais tíquetes.

— Não se preocupe — disse ele gentilmente. — Você logo se acostuma.

O movimento ficou mais calmo. Perguntei à Coelhinha suíça se ela estava gostando do trabalho.

— Não muito — ela respondeu, dando de ombros. — Fui aeromoça durante algum tempo, mas depois que você conhece Hong Kong já viu de tudo.

Um homem se aproximou para tirar o casaco. Virei-me e dei de cara com duas pessoas que eu conhecia bem, um executivo da televisão e a esposa. Mantive os olhos baixos enquanto pegava o tíquete e dei-lhes as costas enquanto o cabideiro procurava o casaco, mas tive de encará-lo outra vez para devolver o mesmo. Meu amigo televisivo olhou diretamente para mim, deu-me cinqüenta centavos de gorjeta e se afastou. Nem ele nem a esposa me reconheceram. Foi deprimente ser uma zé-ninguém fantasiada de Coelhinha, mas era também uma vitória. Para comemorar, ajudei um homem magro, de aparência tímida, a enrolar um cachecol azul e branco no pescoço e perguntei-lhe se o cachecol era da Universidade de Yale. Ele me olhou assustado como se tivesse sido reconhecido num baile de máscaras.

Não havia relógios em nenhum lugar do clube. Perguntei ao cabideiro que horas eram. “Uma hora”, ele respondeu. Eu estava trabalhando há cinco horas, sem intervalo. Meus dedos estavam furados e doloridos, de tanto empurrar alfinetes através de papelão, meus braços doíam com o peso dos casacos e eu estava gelada com o vento glacial que soprava pela porta cada vez que um cliente a abria, equilibrada em sapatos de cetim de salto dez, eu morria de dor nos pés. Aproximei-me da Coelhinha de Chicago para perguntar se eu Podia descansar um pouco.

— Pode. Mas é meia hora para comer e só.

Depois da Sala da Coelhinha havia uma sala de funcionários onde nossos vales nos proporcionavam uma refeição gratuita por dia. Eu aproximei uma cadeira portátil de metal de uma mesa longa e sem adereços, tirei meus sapatos, cuidadosamente, e sentei-me ao lado de dois homens negros uniformizados. Olharam para mim compadecidos enquanto eu massageava os pés. Um deles era jovem e bastante atraente e o outro, de meia idade, tinha os cabelos grisalhos nas têmporas. Como todos os funcionários do clube, pareciam ter sido selecionados devido à aparência física. O mais velho me aconselhou a rolar garrafas no chão, com os pés, como forma de relaxamento, e a comprar palmilhas ortopédicas para os sapatos. Perguntei o que faziam.

— Somos lixeiros — disse o mais jovem. — Pode não parecer grande coisa, mas é um trabalho mais fácil que o seu.

Disseram que eu deveria comer alguma coisa e indicaram o ensopado de carne que comiam em pratos de papel.

— Sexta-feira tem peixe, mas dia sim dia não é este mesmo ensopado — disse um deles.

— O mesmo, só que pior — o outro arrematou e riu.

O mais velho disse que sentia pena das Coelhinhas, muito embora algumas gostassem de “exibir sua beleza”. Ele me aconselhou a ter cuidado com os pés e a tentar evitar duplas-jornadas.

Quando desci outra vez, tentei classificar os clientes enquanto pegava seus casacos. Com a exceção de alguns casais de adolescentes, a clientela era praticamente composta de executivos de meia idade. Menos da metade estava acompanhada de mulheres e o resto chegava em grupos enormes que pareciam ser subsidiados por empresas. Vi apenas quatro do tipo que aparecia representado nos anúncios do clube — o jovem, esbelto e bem-vestido Homem Urbano. Os quatro estavam acompanhados de mulheres esguias e elegantes que pareciam um tanto chocadas com os enchimentos de nossas fantasias e com a maquiagem chamativa. As esposas menos seguras não se comparavam a nós e pareciam supor que seus maridos se sentiriam atraídos por nós. Assim, chegavam para o lado e emanavam timidez e vergonha. Apenas alguns clientes, pouquíssimos, tanto homens quanto mulheres (contei dez ao todo), não olharam para nós como objetos e sim, possivelmente, como seres humanos.

A Coelhinha suíça foi descansar e o cabideiro resolveu me dar um singelo sermão. Segundo ele, eu era tola de colocar todo o dinheiro na caixa. As gorjetas vinham em dinheiro. Se não pegássemos um pouco para nós mesmos, será que o homem que o contava não o faria? Eu disse para ele que tinha medo de que revistassem por dentro da minha fantasia e que eu não queria ser demitida.

— Eles só revistam de vez em quando — ele me assegurou. — Bem, de qualquer forma, você me dá o dinheiro. Eu encontro você lá fora e nós o repartimos.

Meus pés doíam, meus dedos estavam grudentos de tantos forros de chapéus suarentos e minha pele estava arranhada pelas barbatanas da fantasia. Até mesmo o intervalo de meia hora para jantar fora tirado do meu horário de trabalho. Assim, o clube ficava com oito horas completas de trabalho. Meu ressentimento era grande o bastante para me fazer aceitar a oferta que ele me fazia. Mas mesmo assim não valia a pena ser demitida por roubo. Disse a ele que era nova e que ainda estava nervosa demais para levar a sugestão a cabo.

— Você se acostuma — ele disse. — Um sábado desses, a chapelaria arrecadou mil dólares em gorjetas. E você sabe quanto nos pagam. Pense nisso.

Eram quase quatro da manhã. Fim de expediente.

O chefe do lobby veio nos dizer que haviam contado dois mil clientes naquela noite. Eu disse que era um bom número.

— Não — ele discordou. — Quatro mil é um bom numero.

De volta à Sala da Coelhinha, devolvi minha fantasia e me sentei, imóvel, cansada demais para me mexer. O espartilho deixara marcas verticais nas minhas costelas e o zíper deixara um vergão na minha coluna. Reclamei para a Coelhinha que se encontrava ao meu lado, igualmente imóvel, que a fantasia era apertada demais.

— É — ela concordou. — Muitas garotas reclamam que ficam dormentes do joelho para cima. Acho que comprime algum nervo ou coisa parecida.

A rua estava deserta mas havia um táxi vazio do lado de fora, ao lado da saída de funcionários. O motorista mostrava uma nota de dólar pela janela aberta.

— Tenho mais quatro destas aqui — ele disse. — Não é o bastante?

Continuei a andar.

— Qual é? — ele insistiu, irritado. — Você trabalha aí dentro, não trabalha?

As ruas estavam bem-iluminadas e reluzentes com o gelo. Ao percorrer a última quadra, antes de chegar a casa, passei por um carro inglês. O motor estava ligado e havia uma mulher atrás do volante. Seus cabelos eram muito louros e o casaco de um vermelho chamativo. Ela olhou para mim e sorriu. Eu devolvi o sorriso. Ela me pareceu disponível e estava. De nós duas, ela me pareceu a mais honesta.

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