QUARTA, DIA 6

Levantei-me a tempo de correr de volta para o clube para o treinamento de mesa e já cheguei com a sensação de que não tinha dormido em casa. Enquanto vestia a fantasia, uma das Coelhinhas lia um tablóide intitulado O Guia de Shows de Leo Shull em voz alta.

— Escutem só isso aqui: “Embora mil garotas tenham sido entrevistadas para trabalhar no clube e haja 125 trabalhando lá atualmente, a excelente freqüência do Playboy Club, as filas e a multidão de clientes que se aglomeram à porta todos os dias, exigiram a contratação de outras cinqüenta Coelhinhas”.

Eu soubera por Sheralee que havia 103 garotas trabalhando no clube. Perguntei à garota que estava lendo se realmente havia necessidade de contratar mais cinqüenta. Provavelmente, ela respondeu, pois o clube abrira com 140 Coelhinhas e quase 50 haviam se demitido.

Outra garota discordou.

— Eu ouvi dizer que vinte foram demitidas e outras quarenta pediram demissão. Mas eu acho que foram até mais, porque nós somos cem agora e muitas são Coelhinhas novas.

Eu disse que ia perguntar à Srta. Shay quantas garotas haviam se demitido, só de curiosidade.

— Nem se dê ao trabalho — disseram-me. — Aqui ninguém nos conta nada mesmo.

Peguei o jornal e continuei a ler:

— “As garotas, na opinião deste repórter, são as mais lindas jamais reunidas sob um mesmo teto. A maioria tem nível superior e modos esmerados. São treinadas para oferecer o melhor serviço possível… Ganham de três a dez vezes mais do que ganhariam em atividade similar. A média de ganhos é entre duzentos e trezentos dólares e as Coelhinhas conhecem pessoas extremamente atraentes.” O artigo terminava com o endereço do clube e como se inscrever.

— De duzentos a trezentos dólares de quanto em quanto tempo ? — perguntou a Coelhinha dissidente. — Eu recebi 108 dólares esta semana e a garota que mais ganhou recebeu 145.

Perguntei se ela era garçonete e ela disse que sim.

— Da próxima vez que este Leo Shull vier aqui — disse a dissidente — , vou perguntar onde ele arrumou estes números.

— Cuidado — disse a dona do jornal. — Ele é cliente Número Um.

Sheralee me chamou em seu escritório. Continuava desesperada por uma garota “de mais de 21 anos” que pudesse trabalhar até às quatro da manhã. Será que eu não trabalharia na chapelaria outra vez? Eu pesei a proposta. Era mais uma chance de trabalhar antes da Srta. Shay se lembrar de que eu ainda não lhe entregara a certidão de nascimento. Por outro lado, eu sairia do treinamento para Coelhinha Garçonete às seis e começaria uma jornada integral às sete e meia. Meus pés continuavam tão inchados que eu mal conseguia calçar os saltos dez exigidos e estava com um curativo enrolado na cintura no local onde a fantasia apertara e ralara minha pele. Decidi apostar que não seria descoberta durante mais algum tempo e expliquei meu cansaço a Sheralee. Será que não daria para ela encontrar outra?

— Vou tentar — ela disse, aborrecida. — Mas se não conseguir, estou contando com você.

Tomei o elevador até o mezanino mais uma vez e caminhei até a escada em caracol. Descer aquela escadaria, fantasiada, em plena luz do dia, me pareceu ainda mais surrealista com dúzias de transeuntes em seu horário de almoço olhando para dentro. Um dos chefes de seção me aguardava na base da escada.

— Suba e desça outra vez — ele disse, mostrando a multidão que se juntava na rua. — Refresque os olhos desse pessoal.

De acordo com a bíblia da Coelhinha, desobedecer um chefe de setor equivalia, automaticamente, a quinze deméritos. Procurei uma desculpa.

— Olhe — eu disse. — Estou atrasada para o encontro com um cliente Número Um.

— Vá em frente, pequena — ele disse, sorrindo com aprovação— Mexa-se.

Desci as escadas e caminhei para o fundo do lobby, onde se encontrava o Playmate Bar, local do treinamento. Ele estivera escuro e deserto quando eu entrara nele por ocasião de minha primeira entrevista e a parede por trás do bar reluzia com ampliações de transparências coloridas de Coelhinhas seminuas da revista Playboy.

Dirigi-me à área de serviço, ao fundo do bar, para arrumar uma bandeja na qual coloquei uma toalhinha de bar, um isqueiro Playboy e todos os outros itens exigidos pela Escola de Coelhinhas. Minha Coelhinha Treinadora me entregou suas comandas e me mandou segui-la enquanto visitava suas mesas. Ao chegar a cada mesa, ela dizia: “Esta é a Coelhinha Marie e ela é uma Coelhinha em treinamento”. Dois homens me disseram que se eu fizesse tudo o que eles mandassem eu iria bem e que a primeira coisa a fazer seria livrar-me da mal humorada Coelhinha Treinadora.

— Não se preocupe com esses imbecis. Passam a tarde inteira enchendo a cara e se acham muito espertos.

Perguntei se eles não poderiam ser homens da Willmark. Se não estariam sendo difíceis apenas para testá-la.

— Não seja tola. E fácil identificar os homens da Willmark. Eles nunca tomam mais que um drinque.

Duas de suas mesas estavam vazias e ela me mandou atender quem quer que se sentasse nelas. Meus dois primeiros clientes carregavam pastas plásticas e usavam buttons de veteranos de guerra nas lapelas. Aproximei-me deles, cheia de confiança, e embarquei direto no ritual de garçonete.

— Boa tarde, senhores, eu sou sua Coelhinha, Marie — eu disse, e coloquei um guardanapo diante de cada homem (“este procedimento indica ao chefe do setor quais clientes já foram servidos”), tendo o cuidado de olhar direto para eles ao fazê-lo (“olhe nos olhos do cliente imediatamente”). — Eu poderia ver seus chaveiros, por favor?—Um dos clientes me entregou o chaveiro do Coelhinho junto com a chave de um quarto no Hotel Astor. Eu a devolvi e comecei a preencher a comanda.

— Bem — ele disse, batendo na mesa, deliciado. — Pelo menos eu tentei.

— E verdade — disse o outro. — Você não pode nos dar seu endereço mas nada impede que se lembre do nosso.

Enchi os copos de gelo, gritei o pedido de dois Old Fashioneds no bar e perguntei como devia colocar o “lixo” necessário nos drinques a gíria apropriada para enfeites de copo.

— Com as mãos, tá pensando o quê? — disse o barman. Peguei duas rodelas de laranja e cutuquei uma cumbuca já cheia de suco até encontrar duas cerejas. Com os drinques equilibrados na bandeja eu me aproximei dos dois veteranos.

— Você é casada? — perguntou o batedor de mesas. Respondi que não. — Bem, que importância teria se fosse? Eu também sou casado! — Enfiando o quadril na mesa, dobrei os joelhos, inclinei o corpo para trás dando o Mergulho da Coelhinha e coloquei os drinques direto nos guardanapos. Senti-me como uma idiota.

— Você está se saindo muito bem — minha Coelhinha Treinadora sussurrou com doçura e gritou: — Um J&B, uma Coca-Cola e dois martínis — para o barman.

Atendi outros três grupos, todos homens. Dois disseram “Se você é minha Coelhinha, eu posso levá-la para casa?” Outro me perguntou se minha foto estava sobre o bar. Os veteranos me deixaram um dólar de gorjeta. Agradeci e disse que eram meus primeiros fregueses. O batedor de mesa deu um soco no braço do colega e se dobrou de tanto rir.

— Esta garota — ele disse, ainda às gargalhadas —, é uma Coelhinha virgem! — Ele secou as lágrimas dos olhos.

Às seis horas devolvi minhas comandas para a Coelhinha Treinadora. Todas as gorjetas das contas pagas com cartão ficariam para ela, presumivelmente como prêmio pelo meu treinamento. Eu disse a ela que os veteranos haviam me deixado um dólar.

— Pode ficar — ela disse, magnanimamente. Eu o enfiei no cofre”, como vira as outras Coelhinhas fazer, e subi para me trocar. Estava tirando o saco plástico de dentro do decote quando a Srta. Shay entrou na Sala da Coelhinha. Eu jamais a vira aqui. Teriam minhas credenciais sido descobertas? Era possível que não tivesse sabido do meu turno de emergência na chapelaria, mas era provável que soubesse que eu estaria servindo drinques na noite seguinte, de oito à meia-noite. Ela se deteve ao chegar ao meu lado.

— Continue assim — disse ela em tom de confidência. — Ouvi dizer que você é uma ótima Coelhinha.

Decidi perguntar a respeito da “Outra Marie Ochs” que ela mencionara na primeira entrevista.

— Que outra Marie Ochs?—ela perguntou, sumindo para dentro do escritório da Mamãe Coelha.
Estou em casa e Sheralee acaba de telefonar avisando que encontrou outra garota para o turno na chapelaria. Minha sorte continua firme.

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Uma resposta

  1. como eu faço pra vira uma coelhinha da play boy

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