QUINTA, DIA 7

Cheguei à Sala da Coelhinha uma hora mais cedo para ver se conseguia descobrir alguma coisa a respeito de minhas irmãs coelhas. O jornal as descrevera como universitárias, atrizes, artistas e até mesmo lingüistas. Perguntei a uma Coelhinha que se sentara a meu lado sobre as lingüistas. Ela disse que era verdade, que havia umas estrangeiras trabalhando na sala VIP. (Conforme eu lera na bíblia, “VIP são as iniciais de Very Important Playboy, é claro”.) Na verdade, era necessário falar inglês com sotaque estrangeiro para trabalhar no salão em questão, que se especializava em jantares e ceia da meia-noite. E as Coelhinhas que trabalhavam lá ganhavam bem?

— Na verdade não. Só cabem cinqüenta pessoas no salão e como é jantar, o entra e sai é bem menor. E bem melhor servir drinques e se livrar dos boçais rapidinho. — Então perguntei a respeito das universitárias.

— Ah, claro. Acho que tem umas três ou quatro que freqüentam aulas durante a semana e trabalham nos fins de semana.

E como é que elas conseguiam trabalhar só nos fins de semanas, as noites de maior movimento e de melhores gorjetas?

— Escuta aqui, colega, tem gente aqui que pode escolher os horários que quiser e o resto tem de agüentar uma semana de almoços ou aquela porcaria de chapelaria. Na maioria são as garotas de Chicago ou alguém que tem prestígio junto à gerência.

Perguntei se isso não seria por estarem trabalhando há mais tempo-

— Claro — ela disse, procurando um lugar para colocar as orelhinhas em cima do cabelo armado. — Só que tal sistema não deveria existir. “Vocês são todas tratadas da mesma forma”, é isso. que nos dizem.

Perguntei o que ela fizera antes de se tornar Coelhinha.

— Nada de mais. Fui modelo um tempo.

E o que ela esperava que ser Coelhinha lhe traria?

Pensei que talvez desse para economizar algum dinheiro para tirar umas fotos e fazer um book para poder virar modelo de verdade. Mas depois de três meses fazendo isso aqui, quero mesmo é me casar. Tem caras para os quais eu nem olharia antigamente que hoje em dia não me parecem tão ruins assim.

Fui para o outro lado da mesa, onde quatro garotas comiam rosquinhas e bebiam chocolate (“comer na Sala da Coelhinha… cinco deméritos”), e me apresentei como sendo uma Coelhinha nova. Todas se apresentaram pelo primeiro nome. Elas pareceram satisfeitas com a interrupção e me ofereceram uma rosquinha. Perguntei mais uma vez a respeito das universitárias.

— É, tem mesmo algumas por aí — disse uma delas. — Eu conheci uma outro dia que está fazendo um curso de fotografia.

Perguntei o que elas haviam feito antes de se tornarem Coelhinhas e o que gostariam de fazer no futuro. Três delas disseram que gostariam muito de ser modelo — não de alta-costura e sim para anúncios ou para confecções. A quarta disse que era casada, que tinha um bebê e que estava apenas ganhando uns trocados como Coelhinha porque não tinha treinamento para mais nada. Elas fizeram perguntas a meu respeito e repeti o que escrevera no formulário de solicitação de emprego, um histórico provável porém nada impressionante para uma Coelhinha: que eu trabalhara como garçonete (era verdade, embora durante a faculdade), que eu dançara em boates e que sonhara em ser bailarina profissional um dia (também era verdade, embora eu tenha precisado trocar algumas datas para poder diminuir a idade) e que meu trabalho mais recente fora como secretária (não era verdade, mas era a única coisa para a qual eu conseguira arrumar referências).

— Nossa, você já fez coisa à beça — disse a candidata a modelo de confecção. — Se você sabe bater à máquina para que diabos quer ser Coelhinha?

Eu disse a elas que tudo que eu ouvira dizer a respeito do clube me parecera magnífico. Li para elas o mais recente Playboy Club News: nossas garotas não abrem mão de salários altos pelo glamour. Uma Coelhinha ganha facilmente duas vezes o salário semanal de uma secretária… Sem contar a vantagem a mais que é a possibilidade de ser descoberta. Muitas Coelhinhas se transferiram para o ramo artístico e hoje podem ser vistas em filmes, em shows ou como modelos…”Fez-se um breve silêncio.

— Bem… É verdade — disse uma delas. — Se eles dizem isso é porque deve ter acontecido com algumas garotas. — Uma outra disse que uma das Coelhinhas de Chicago saíra na capa da Playboy há mais ou menos um ano e que estava para sair outra vez logo logo.

— É isso aí — disse a terceira. — Mas ouvi dizer que é só porque estão com poucas Coelhinhas e estão tentando recrutar mais.

Eram quase oito da noite, hora de vestir a fantasia laranja brilhante (esperava que fosse mais confortável do que a azul-rei) para servir drinques na Sala de Estar.

Mais uma vez eu tinha uma Coelhinha Treinadora cujas comandas eu usava. Também fiquei com um grupo de mesas só para mim, já que uma das Coelhinhas Garçonetes faltara.

— Era só o que faltava — comentou a Coelhinha Treinadora. — Uma garota sofre um acidente de carro e tinha de ser justamente no meu turno.

Minhas mesas encontravam-se no “Cantinho dos Quadrinhos”, um canto decorado com quadrinhos emoldurados tirados da Playboy. Como era bem ao fundo do bar, com quatro degraus a serem subidos, era considerada uma área difícil. A técnica da Coelhinha para carregar bandejas envolvia ter de carregar as bandejinhas redondas equilibradas lá em cima, na palma da mão esquerda, enquanto olhávamos direto para frente andando de maneira elegante e levemente rebolativa. O Passo da Coelhinha. Parecia ser muito simples, mas, depois de uma hora carregando bandejas cheias de cubos de gelo, garrafas de drinques semiprontos e meia dúzia de drinques de cada vez, meu braço esquerdo começou a tremer e o sangue parecia que jamais voltaria às pontas dos dedos.

Além do mais, eu ainda não fora paga. Reclamei para minha Coelhinha Treinadora mas ela disse que eu não tinha motivos para reclamar. As Coelhinhas contratadas antes da inauguração do clube, em dezembro, haviam treinado durante três semanas sem serem pagas.

Realmente aprendi muito. Atendi 22 clientes, derramei dois drinques (um em mim mesma e um no cliente) e recebi duas cantadas. Os músicos do bar me ensinaram que existe o “Tema do Playboy” com a seguinte letra:

Se o seu amor é um Playboy
Afrouxe as rédeas um pouquinho.
Se os olhos dele vagarem, minha querida,
Seu amado não passa
De uma criaturinha ranzinza
Que se derrete por um pouco de brilho.
Então, se você estiver amarrada,
Lembre-se de que ele é um Playboy
E que a garota que fizer dele um homem caseiro
O terá para sempre.
Fale sempre docemente,
Por mais indiscreto que ele seja
E nunca deixe que a vida perca a leveza.

Uma das muitas tarefas dos homens da Willmark é se certificar de que este hino seja tocado no começo e no fim de cada show, todas as noites — tal qual um hino nacional.

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Uma resposta

  1. Olá gostei da sua matéria como faço para me comunicar com você ?
    Por favor me escreva:anastarfriend@hotmail.com
    eu estou pensando em trabalhar na playboy como coelhinha,mais só tem um pequeno problema,eu ainda não falo inglês !

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