DOMINGO, DIA 10

Cheguei a casa às quatro da manhã e tinha de estar de volta ao clube, fantasiada, às onze para posar para fotos de publicidade. A princípio fiquei furiosa (são 25 deméritos para quem faltar), mas uma vez que já levantara e saíra de casa, fiquei contente. Era a primeira vez em quase três dias que eu via a luz do dia.

Gloria Steinem como coelhinha

Gloria Steinem como coelhinha - parte do trabalho da coelhinha é ser fotografada, sem saber como, onde ou quando usarão sua imagem

O fotógrafo da Playboy estava ajeitando uma garota na imensa e curvilínea escadaria ao fundo do lobby. Cada uma de nós tirava uma série de fotos ridículas: sentada nas escadas com as pernas esticadas, em pé com a mão no corrimão (“chegue o corpo para frente um pouquinho, querida, só da cintura para cima”), e descendo as escadas com a bandeja lá no alto.

Perguntei ao fotógrafo para que serviriam as fotos. “Não sei”, respondeu. “Ordens de Chicago.” Por força do hábito, as Coelhinhas novas tinham de assinar uma cessão de direitos de todas as fotos. Perguntei se nossas fotos acabariam em alguma promoção do clube ou na própria revista. Ninguém sabia dizer.

Uma voz me chamou das profundezas do Bar. Era a Srta. Shay, sentada à mesma mesa na qual eu a vira da primeira vez aguardando para entrevistar candidatas a Coelhinha. Os fotógrafos pediram para colocarem música. “Marie tocará para nós”, ela disse. “Marie toca piano muito bem, não é, querida?” Não, respondi, não sei tocar nada. “Mas eu tenho certeza de que você me disse que tocava piano durante a entrevista”, ela disse com firmeza.

O esquecimento de minhas credenciais, a outra Marie Ochs e agora a história do piano. Pensei nas diversas vezes em que eu vira a aparentemente eficiente Srta. Shay chamar serventes pelo nome errado. Pela primeira vez eu tive a certeza de que, a não ser que alguém me reconhecesse, eu trabalharia no Playboy Club o tempo que quisesse.

Lá fora o sol brilhava e me perguntei quanto tempo eu gostaria de ficar. Já que Marie não seria descoberta, Marie teria de pôr um fim à sua própria carreira. De acordo com os horários desta semana, eu teria de trabalhar no almoço, quatro horas por dia, e só. Não era incumbência das mais invejadas mas me daria mais tempo para conversar com as Coelhinhas.

Decidi que Marie viveria até sexta-feira.

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