SEGUNDA, DIA 11

Um artigo do Metropolitan Daily foi o assunto do dia na Sala da Coelhinha. Duas ex-Coelhinhas estão processando o clube devido a gorjetas atrasadas e “informação enganosa” em relação à quantia que um Coelhinha pode ganhar. Uma delas disse ao repórter que ela recebera cinco ameaças de morte, imediatamente após entrar com a ação.

— Eu conheci Phyllis Sands — disse uma Coelhinha. — Mas não sei quem é essa Betsy McMillan que recebeu as ameaças. — Ela olhou bem as fotos das duas. — Elas se certificaram de que as fotos eram boas para publicação.

— Por que, ela achava que as tais ameaças podiam ser mero golpe publicitário?

— Ué, e eu lá sei? — ela disse, sacudindo os ombros. — Vai ver que não disseram a ela que o clube ficaria com metade das gorjetas ou talvez o salário seja muito mais baixo do que ela esperava. Mas, por outro lado, talvez ela tenha mandado o namorado fazer ameaças pelo telefone só para seu nome aparecer no jornal. Vai saber!

Desci até a Sala de Almoço e comecei a pôr a mesa. Das seis outras Coelhinhas que trabalhavam ali, eu conhecia três: uma Coelhinha chinesa, uma outra que anunciou em alto e bom som que não precisava encher o decote e a ruiva grandalhona com Voz de bebê que eu conhecera no primeiro dia, na Sala da Coelhinha. O chefe do setor dividiu as mesas e nos sentamos na beirada do palco para esperar os clientes. A Coelhinha sem enchimento comentou que as gorjetas eram bem melhores em Chicago.

— Os caras são mais burros por lá — ela disse. — Quer dizer, é mais fácil fazer com que acreditem que você sairia com eles, assim te dão uma gorjeta maior.

— O clube de Miami também é uma droga — disse Vozinha de Bebê. — Uma vez nós nos juntamos e avisamos que iríamos embora se não nos pagassem melhor. Eles nos mandaram ir em frente, contratariam outras garotas.

— Será que não foi um blefe duplo, hein? — comentei.

— É verdade. Ia custar caro para o clube se nós todas nos demitíssemos ao mesmo tempo. Mas eles iam fazer o quê? — disse uma Coelhinha de cabelos escuros.

— Ah, sei lá. Talvez mandassem buscar Coelhinhas em outros clubes — disse Vozinha de Bebê. — A gente sempre se dá mal. — Havia um piano no meio do palco e ela fingiu que estava tocando Jazz para a sala toda.

— Lá-lá-lá-ri-rá — ela cantarolou.

Uma Coelhinha de cabelos compridos foi até lá e fingiu, com enorme destreza, que estava fazendo um striptease.

— Me pediram para posar para a revista uma vez — ela contou. Agora não chamariam mais. Eu emagreci tanto…

A Coelhinha de cabelos escuros disse a ela que não tinha importância porque eles sempre faziam foto-montagem. Ela própria conhecia a garota que fazia os seios. Eu disse que duvidava muito que fosse verdade, que há limites para o que se pode fazer com airbrush.

— E eles devem usar garotas diferentes — disse a stripper. —. Os seios que saem na revista são de tamanhos diferentes.

— Eles sã-ããão de tamanhos diferentes — cantou Voz de Bebê, levantando-se para fazer seu próprio striptease. Ela tirou a gravata borboleta, a gola e os punhos e os jogou para fora do palco seguindo cada movimento com um experiente rebolado.

— O.K., garotas — disse o chefe do setor com a voz gelada. — Chega. — Três clientes de meia-idade, os primeiros do corre-corre da hora do almoço, encontravam-se à porta, apertando os olhos para enxergar na penumbra do salão.

— Pronto — disse Vozinha de Bebê, enojada. — Os babacas chegaram.

Servir o almoço durante quatro horas não seria o bastante para reabrir todas as feridas dos meus pés. Mas as pilhas e mais pilhas de rosbife (é só isso que servimos, e é por isso que o chefe deste setor é chamado de “O Rei do Rosbife”) faziam pesar mais a bandeja do que os drinques. Os clientes eram todos homens. As esposas e namoradas que apareciam à noite estavam ausentes nos almoços. Um cliente me disse várias vezes que era vice-presidente de uma companhia de seguros e que me pagaria para servir durante uma festa particular em seu hotel. Um outro se levantou da cadeira, depois do quarto martíni, e se pôs a cafungar o meu pescoço. Quando me afastei ele se zangou de verdade.

— Por que você acha que eu venho aqui? — indagou. — Para comer rosbife?

Às três, quando a última mesa fora limpa, eu voltei à Sala da Coelhinha. A chefe de guarda-roupas me parou.

— Minha filha — ela disse —, essa fantasia está enorme em você.

Era verdade, eu perdera quatro quilos desde que a vestira pela primeira vez. Era também verdade que, pela primeira vez, estava apenas tão desconfortável quanto uma cinta apertada. Ela apertou a cintura com alfinetes e me mandou tirar a fantasia.

— Vai estar cabendo como uma luva quando você chegar para trabalhar amanhã. Vou ter de apertar cinco centímetros de cada lado.

Eu tirei o Playboy Club News do meu armário e li em voz alta: “O mundo do Playboy Club é cheio de bons shows, lindas garotas e playboys que gostam de se divertir. É uma festa contínua. As alegres Coelhinhas sentem-se como se fossem um dos convidados…”

Minhas colegas da Sala de Almoço começaram a rir.

— E que festão — disse Vozinha de Bebê. — Nem sair com os clientes se pode.

Perguntei se algum homem da Willmark já tentara pegá-la.

— Nããão — ela respondeu, pensativa. — Mas um cara ofereceu duzentos dólares para uma garota se ela prometesse encontrá-lo depois do trabalho. E ela aceitou—Vozinha de Bebê disse com desprezo. — Ela devia saber que só mesmo um imbecil ou um homem da Willmark ofereceria dinheiro antes.

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