QUARTA, DIA 13

13/02/1963 - Leave a Response

Completei a lista de enchimentos de decotes:

1. Lenços de papel
2. Sacos plásticos
3. Algodão
4. Rabos de Coelhinhas
5. Espuma
6. Lã de carneiro
7. Absorventes íntimos cortados ao meio
8. Lenços de seda
9. Meias de ginástica

Descobri também que não só podemos sair com clientes Número Um como com qualquer um a quem estes nos apresentem. Podemos sair também com quem quer que conheçamos nas festas de Vic Lownes. Mas, no entanto, há limites para esta pesquisa.

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TERÇA, DIA 12

12/02/1963 - Leave a Response

Duas das minhas colegas da Escola da Coelhinha, Gloria e a assistente de mágico, juntaram-se a nós na Sala de Almoço. Peguei-me explicando como servir o rosbife e como convencer os clientes de que estava malpassado, bem-passado ou ao ponto, embora estivessem todos, na verdade, idênticos.

Era dia do aniversário de Abraham Lincoln e o movimento estava fraco. Ouvi a Coelhinha sem enchimento explicar que gostava de homens mais velhos porque “eles te dão dinheiro”.

— Saí uma vez com um velho que conheci no clube e arrumei mais duas Coelhinhas para os amigos dele. Sabe que ele me deu um cheque de cem dólares só porque foi com a minha cara?

A Coelhinha sem enchimento explicou também que um dos executivos da casa lhe havia dado setecentos dólares para comprar um vestido.

— Eu tinha quinhentos dólares e comprei um vestido de 1.200 -e ele me levou a uma festa vestindo o tal vestido.

Uma Coelhinha de cabelos escuros disse que conhecia o mesmo cara de Chicago.

— Você e todo mundo — disse a Coelhinha sem enchimento.

— Se você fosse contar todas as Coelhinhas que saíram com o cara…

A Coelhinha de cabelos escuros estava pensativa.

— Nós tivemos um caso muito louco durante três semanas. Foi loucura mesmo. Eu deveria saber que não ia dar em nada…

Todas as garotas acham que vai dar em alguma coisa — disse a Coelhinha sem enchimento em tom de consolo. — Mas nunca dá.

— Conversaram sobre o apartamento imenso do executivo, sobre sua fortuna e impulsos românticos. Ele me pareceu um exterminador.

Sem Enchimento se levantou para servir um cliente e a Coelhinha de cabelos escuros olhou para ela com desdém.

— Duvido que ele tenha dado setecentos dólares para ela – declarou com firmeza. — Ninguém arranca um centavo dele.

SEGUNDA, DIA 11

11/02/1963 - Leave a Response

Um artigo do Metropolitan Daily foi o assunto do dia na Sala da Coelhinha. Duas ex-Coelhinhas estão processando o clube devido a gorjetas atrasadas e “informação enganosa” em relação à quantia que um Coelhinha pode ganhar. Uma delas disse ao repórter que ela recebera cinco ameaças de morte, imediatamente após entrar com a ação.

— Eu conheci Phyllis Sands — disse uma Coelhinha. — Mas não sei quem é essa Betsy McMillan que recebeu as ameaças. — Ela olhou bem as fotos das duas. — Elas se certificaram de que as fotos eram boas para publicação.

— Por que, ela achava que as tais ameaças podiam ser mero golpe publicitário?

— Ué, e eu lá sei? — ela disse, sacudindo os ombros. — Vai ver que não disseram a ela que o clube ficaria com metade das gorjetas ou talvez o salário seja muito mais baixo do que ela esperava. Mas, por outro lado, talvez ela tenha mandado o namorado fazer ameaças pelo telefone só para seu nome aparecer no jornal. Vai saber!

Desci até a Sala de Almoço e comecei a pôr a mesa. Das seis outras Coelhinhas que trabalhavam ali, eu conhecia três: uma Coelhinha chinesa, uma outra que anunciou em alto e bom som que não precisava encher o decote e a ruiva grandalhona com Voz de bebê que eu conhecera no primeiro dia, na Sala da Coelhinha. O chefe do setor dividiu as mesas e nos sentamos na beirada do palco para esperar os clientes. A Coelhinha sem enchimento comentou que as gorjetas eram bem melhores em Chicago.

— Os caras são mais burros por lá — ela disse. — Quer dizer, é mais fácil fazer com que acreditem que você sairia com eles, assim te dão uma gorjeta maior.

— O clube de Miami também é uma droga — disse Vozinha de Bebê. — Uma vez nós nos juntamos e avisamos que iríamos embora se não nos pagassem melhor. Eles nos mandaram ir em frente, contratariam outras garotas.

— Será que não foi um blefe duplo, hein? — comentei.

— É verdade. Ia custar caro para o clube se nós todas nos demitíssemos ao mesmo tempo. Mas eles iam fazer o quê? — disse uma Coelhinha de cabelos escuros.

— Ah, sei lá. Talvez mandassem buscar Coelhinhas em outros clubes — disse Vozinha de Bebê. — A gente sempre se dá mal. — Havia um piano no meio do palco e ela fingiu que estava tocando Jazz para a sala toda.

— Lá-lá-lá-ri-rá — ela cantarolou.

Uma Coelhinha de cabelos compridos foi até lá e fingiu, com enorme destreza, que estava fazendo um striptease.

— Me pediram para posar para a revista uma vez — ela contou. Agora não chamariam mais. Eu emagreci tanto…

A Coelhinha de cabelos escuros disse a ela que não tinha importância porque eles sempre faziam foto-montagem. Ela própria conhecia a garota que fazia os seios. Eu disse que duvidava muito que fosse verdade, que há limites para o que se pode fazer com airbrush.

— E eles devem usar garotas diferentes — disse a stripper. —. Os seios que saem na revista são de tamanhos diferentes.

— Eles sã-ããão de tamanhos diferentes — cantou Voz de Bebê, levantando-se para fazer seu próprio striptease. Ela tirou a gravata borboleta, a gola e os punhos e os jogou para fora do palco seguindo cada movimento com um experiente rebolado.

— O.K., garotas — disse o chefe do setor com a voz gelada. — Chega. — Três clientes de meia-idade, os primeiros do corre-corre da hora do almoço, encontravam-se à porta, apertando os olhos para enxergar na penumbra do salão.

— Pronto — disse Vozinha de Bebê, enojada. — Os babacas chegaram.

Servir o almoço durante quatro horas não seria o bastante para reabrir todas as feridas dos meus pés. Mas as pilhas e mais pilhas de rosbife (é só isso que servimos, e é por isso que o chefe deste setor é chamado de “O Rei do Rosbife”) faziam pesar mais a bandeja do que os drinques. Os clientes eram todos homens. As esposas e namoradas que apareciam à noite estavam ausentes nos almoços. Um cliente me disse várias vezes que era vice-presidente de uma companhia de seguros e que me pagaria para servir durante uma festa particular em seu hotel. Um outro se levantou da cadeira, depois do quarto martíni, e se pôs a cafungar o meu pescoço. Quando me afastei ele se zangou de verdade.

— Por que você acha que eu venho aqui? — indagou. — Para comer rosbife?

Às três, quando a última mesa fora limpa, eu voltei à Sala da Coelhinha. A chefe de guarda-roupas me parou.

— Minha filha — ela disse —, essa fantasia está enorme em você.

Era verdade, eu perdera quatro quilos desde que a vestira pela primeira vez. Era também verdade que, pela primeira vez, estava apenas tão desconfortável quanto uma cinta apertada. Ela apertou a cintura com alfinetes e me mandou tirar a fantasia.

— Vai estar cabendo como uma luva quando você chegar para trabalhar amanhã. Vou ter de apertar cinco centímetros de cada lado.

Eu tirei o Playboy Club News do meu armário e li em voz alta: “O mundo do Playboy Club é cheio de bons shows, lindas garotas e playboys que gostam de se divertir. É uma festa contínua. As alegres Coelhinhas sentem-se como se fossem um dos convidados…”

Minhas colegas da Sala de Almoço começaram a rir.

— E que festão — disse Vozinha de Bebê. — Nem sair com os clientes se pode.

Perguntei se algum homem da Willmark já tentara pegá-la.

— Nããão — ela respondeu, pensativa. — Mas um cara ofereceu duzentos dólares para uma garota se ela prometesse encontrá-lo depois do trabalho. E ela aceitou—Vozinha de Bebê disse com desprezo. — Ela devia saber que só mesmo um imbecil ou um homem da Willmark ofereceria dinheiro antes.

DOMINGO, DIA 10

10/02/1963 - Leave a Response

Cheguei a casa às quatro da manhã e tinha de estar de volta ao clube, fantasiada, às onze para posar para fotos de publicidade. A princípio fiquei furiosa (são 25 deméritos para quem faltar), mas uma vez que já levantara e saíra de casa, fiquei contente. Era a primeira vez em quase três dias que eu via a luz do dia.

Gloria Steinem como coelhinha

Gloria Steinem como coelhinha - parte do trabalho da coelhinha é ser fotografada, sem saber como, onde ou quando usarão sua imagem

O fotógrafo da Playboy estava ajeitando uma garota na imensa e curvilínea escadaria ao fundo do lobby. Cada uma de nós tirava uma série de fotos ridículas: sentada nas escadas com as pernas esticadas, em pé com a mão no corrimão (“chegue o corpo para frente um pouquinho, querida, só da cintura para cima”), e descendo as escadas com a bandeja lá no alto.

Perguntei ao fotógrafo para que serviriam as fotos. “Não sei”, respondeu. “Ordens de Chicago.” Por força do hábito, as Coelhinhas novas tinham de assinar uma cessão de direitos de todas as fotos. Perguntei se nossas fotos acabariam em alguma promoção do clube ou na própria revista. Ninguém sabia dizer.

Uma voz me chamou das profundezas do Bar. Era a Srta. Shay, sentada à mesma mesa na qual eu a vira da primeira vez aguardando para entrevistar candidatas a Coelhinha. Os fotógrafos pediram para colocarem música. “Marie tocará para nós”, ela disse. “Marie toca piano muito bem, não é, querida?” Não, respondi, não sei tocar nada. “Mas eu tenho certeza de que você me disse que tocava piano durante a entrevista”, ela disse com firmeza.

O esquecimento de minhas credenciais, a outra Marie Ochs e agora a história do piano. Pensei nas diversas vezes em que eu vira a aparentemente eficiente Srta. Shay chamar serventes pelo nome errado. Pela primeira vez eu tive a certeza de que, a não ser que alguém me reconhecesse, eu trabalharia no Playboy Club o tempo que quisesse.

Lá fora o sol brilhava e me perguntei quanto tempo eu gostaria de ficar. Já que Marie não seria descoberta, Marie teria de pôr um fim à sua própria carreira. De acordo com os horários desta semana, eu teria de trabalhar no almoço, quatro horas por dia, e só. Não era incumbência das mais invejadas mas me daria mais tempo para conversar com as Coelhinhas.

Decidi que Marie viveria até sexta-feira.

SÁBADO, DIA 9

09/02/1963 - Leave a Response

A curvatura do meu pé não desabou. Calcei galochas (os únicos sapatos grandes e largos o bastante para caberem meus pés) e fui ao calista (“Todas as garotas do Copa são minhas clientes”), que me disse não haver nada de errado com meus pés, a não ser trabalho demais, saltos muito altos e cansaço muscular. “Com um trabalho desses”, ele disse, todo contente, “seu pé é bem capaz de aumentar algumas pontuações.”

Trabalhei na Sala de Estar outra vez esta noite. Peguei emprestado um par de sapatos três pontuações acima da minha, protegi minhas costelas com gaze por dentro da fantasia e convenci os auxiliares de garçom a me ajudar a carregar as bandejas mais pesadas. Só assim consegui sobreviver à noite. Mas fui recompensada com as seguintes informações:

1. Uma Coelhinha que já tenha posado para o pôster central da revista Playboy recebe cinco dólares a mais, por dia, do que as outras. Ela também é obrigada a se apresentar aos clientes da seguinte forma: “Eu sou Sue, Coelhinha da revista Playboy” em vez de “Eu sou sua Coelhinha, Sue” e precisa autografar o pôster em questão se o cliente pedir.

2. Com o intuito de apaziguar os ânimos dos nova-iorquinos quecompraram chaveiros esperando freqüentar um clube privé, Hugh Hefner declarou que clientes não-associados “devem obter um passe provisório válido apenas por uma noite e precisam pagar no ato do pedido, em espécie”. Ao contrário das instruções do Sr. Hefner, as Coelhinhas são encorajadas a cobrar depois de servirem os drinques, mas poucas fazem isso. A maioria deixa que os clientes acumulem a dívida e paguem tudo de uma vez como qualquer portador de chaveiros. Para dizer a verdade, as Coelhinhas preferem servir não-sócios por saberem que estes pagarão em espécie e que a gorjeta das contas pagas com cartão serão compartilhadas com a casa.

3. Coelhinhas e serventes vivem um relacionamento de amor e ódio. Um bom servente pode enriquecer uma Coelhinha se ele mantiver as mesas limpas para a chegada de novos clientes. Um mau servente pode roubar as gorjetas em espécie antes que a Coelhinha a veja e insistir que ela tomou um “cano” do cliente. Assim, uma Coelhinha poderá passar uma noite inteira bajulando um moleque que ela nem sonharia em tratar bem fora do clube. E um relacionamento complicado, mas íntimo, nos mesmos moldes de muitas mulheres e seus cabeleireiros, um sabe tudo sobre a vida do outro.

4. Muitas Coelhinhas acham sacos plásticos perigosos como enchimento porque fazem suar, e conseqüentemente perder peso quando mais se precisa de energia. Dão preferência a lenços de papel e algodão.

5. A forma de conseguir uma comidinha, mesmo sendo Coelhinha Garçonete, é afaná-la do bufê dos clientes (sob pena de demissão instantânea, é o que diz um memorando recente) e escondê-la na despensa. Assim você belisca um pouco cada vez que passar. Quase ninguém vai à sala dos funcionários para comer ensopado.