PÓS-ESCRITO: Alguns dos efeitos a longo prazo
31/01/1995

1. Meus pés aumentaram uma pontuação devido aos saltos altos e às horas seguidas carregando bandejas pesadas.

2. A satisfação de saber, vinte anos depois, que o estado de Nova Jersey decidira que a Playboy Enterprises não estava apta a operar um cassino em Atlantic City devido ao fato de haverem subornado autoridades para obter um alvará para servir bebidas alcoólicas. Tal decisão perdurará até que a Playboy Enterprises deixe de pertencer ao Sr. Hugh Hefner.

3. A revista Playboy continua a publicar uma foto minha, como Coelhinha, no meio de fotos ainda mais pornográficas de outras Coelhinhas. A versão de 1983 era que meu artigo “aumentara o número de candidatas a Coelhinha”. A versão de 1984 trazia uma foto tirada num jantar quando eu levantei os braços e meu vestido de noite escorregou, revelando parte de meu seio. Tratava-se de um jantar beneficente para a Fundação Ms. para Mulheres e também meu aniversário de cinqüenta anos. Nenhuma outra publicação usou essa foto. Mas a Playboy não esquece jamais.

4. Trinta anos de ocasionais telefonemas de Coelhinhas de ontem e de hoje com histórias sobre as condições de trabalho e as exigências sexuais sofridas. Nos primeiros anos, as Coelhinhas se impressionavam com o fato de eu ter usado meu próprio nome no artigo. Uma delas disse ter sido ameaçada “com ácido atirado na cara” por ter reclamado das Coelhinhas serem usadas sexualmente. Outra citou ameaça idêntica por ter sugerido que as Coelhinhas se sindicalizassem. Todas ficaram surpresas de encontrar meu nome no catálogo telefônico. Eventualmente, precisei trocar o número e fazer com que não constasse mais do catálogo.

5. Em 1984, foi feita uma dramatização deste artigo para a televisão, estrelando Kirstie Alley, então uma atriz desconhecida, no meu papel como repórter. Tinha um título horrendo “A Bunny’s Tale” (a frase, falada, tem duplo sentido: “História de uma Coelhinha” ou “O Rabo de uma Coelhinha”), mas o filme era bom. Sua qualidade deveu-se, principalmente, ao fato de a diretora Karen Arthur ter reunido as mulheres não só para ensaiar como também para se conhecerem — algo praticamente inexistente na televisão. Uma antiga Coelhinha do Chicago Playboy Mansion ofereceu-se para ser diretora técnica. Ela vira muitas jovens serem destruídas por drogas e queria ajudar-nos a mostrar a realidade dos bastidores da vida destas mulheres. Mesmo dizendo estar recebendo ameaças pelo telefone, ela ficou no set: uma réplica exata do Playboy Club de Nova York, construído pelos esboços do arquiteto responsável. Dizem que Hugh Hefner usou suas influências na televisão para pressionar a rede ABC a não ir adiante com a produção do filme. Mas o mesmo foi exibido e passou na ABC durante quatro anos e é reprisado até hoje no canal Lifetime. No ano passado uma moça que trabalha num café perto de minha casa me contou que o filme significara muito para ela. Seu namorado também o assistira e finalmente compreendera o que ela passava como garçonete. Isso significou muito para mim. Me dar conta de que toda mulher é uma Coelhinha. Depois que o feminismo entrou em minha vida, parei de me arrepender por ter escrito este artigo. Graças à versão para televisão, tive o imenso prazer de me relacionar com mulheres que talvez não leriam um livro ou uma revista feminista mas que reagiram positivamente às raras condições de trabalho razoáveis e a um grupo de mulheres que se apoiam umas às outras.

PÓS-ESCRITO: Efeitos deste artigo a curto prazo
31/01/1995

1. Recebi uma longa carta de Hugh Hefner dizendo que “a história do exame médico ao qual as garotas se submetiam antes de começar a trabalhar me levaram a eliminá-lo”. (Ele continuava a achar que era “uma boa idéia”, e observou que não era a primeira vez que o exame era “mal-interpretado e transformado em algo duvidoso”.) Ele incluiu também os primeiros quatro mandamentos de sua “Filosofia do Playboy”. Durante grande parte da carta de três páginas, no entanto, ele insistiu em que não se importara nem um pouco com o artigo.

2. Uma ação judicial, por calúnia e difamação, no valor de um milhão de dólares foi movida contra mim e contra um jornalzinho de Nova York, hoje extinto, que comentara meu artigo e o fato de o gerente do clube de Nova York ter sido acusado de manter claras relações com a Máfia. Embora tais alegações não tivessem saído do meu artigo, incluíram-me no processo como forma de me incomodar. Passei muitas horas desagradáveis depondo e sendo ameaçada com punições. Finalmente, o jornal fez um acordo sem me mencionar. Outros jornalistas me contaram que este tipo de ação, com ou sem base na verdade, era uma forma usada com freqüência para desencorajar ou punir jornalistas.

3. Servi de testemunha para a Divisão de Bebidas Alcoólicas do estado de Nova York para identificar as instruções escritas que me foram passadas como Coelhinha para que servissem de prova num processo contra o Playboy Club por ter um alvará de funcionamento como bar público embora se anunciasse na imprensa como clube privé. Isto se relacionava ao fato do Playboy Club ter subornado autoridades para obter o alvará para a venda de bebidas alcoólicas e em seguida ter usado as provas deste suborno contra as mesmas autoridades. A Divisão de Bebidas Alcoólicas do estado de Nova York contra-atacou com o processo do público versus privé no qual eu servi de testemunha. Os advogados me disseram que outras Coelhinhas haviam sido procuradas mas tiveram medo de testemunhar, até mesmo tendo apenas que identificar as instruções escritas nas quais nos instruíam a ressaltar a natureza privada e exclusiva do clube. Eu assistira a tantos julgamentos em filmes nos quais a justiça vencia no final que concordei. Depois do advogado do Playboy Club ter passado um tempo considerável tentando provar que eu era mentirosa, uma mulher de moral duvidosa, comecei a entender por que as outras Coelhinhas haviam se recusado a testemunhar. No final, o Playboy Club manteve o alvará.

4. Muitas semanas de ligações obscenas e ameaçadoras feitas por um homem com grande conhecimento interno do Playboy Club.

5. O súbito desaparecimento de matérias jornalísticas sérias porque eu me tornara uma Coelhinha — o motivo não tinha a menor importância.

DOMINGO, DIA 10
10/02/1963

Cheguei a casa às quatro da manhã e tinha de estar de volta ao clube, fantasiada, às onze para posar para fotos de publicidade. A princípio fiquei furiosa (são 25 deméritos para quem faltar), mas uma vez que já levantara e saíra de casa, fiquei contente. Era a primeira vez em quase três dias que eu via a luz do dia.

Gloria Steinem como coelhinha

Gloria Steinem como coelhinha - parte do trabalho da coelhinha é ser fotografada, sem saber como, onde ou quando usarão sua imagem

O fotógrafo da Playboy estava ajeitando uma garota na imensa e curvilínea escadaria ao fundo do lobby. Cada uma de nós tirava uma série de fotos ridículas: sentada nas escadas com as pernas esticadas, em pé com a mão no corrimão (“chegue o corpo para frente um pouquinho, querida, só da cintura para cima”), e descendo as escadas com a bandeja lá no alto.

Perguntei ao fotógrafo para que serviriam as fotos. “Não sei”, respondeu. “Ordens de Chicago.” Por força do hábito, as Coelhinhas novas tinham de assinar uma cessão de direitos de todas as fotos. Perguntei se nossas fotos acabariam em alguma promoção do clube ou na própria revista. Ninguém sabia dizer.

Uma voz me chamou das profundezas do Bar. Era a Srta. Shay, sentada à mesma mesa na qual eu a vira da primeira vez aguardando para entrevistar candidatas a Coelhinha. Os fotógrafos pediram para colocarem música. “Marie tocará para nós”, ela disse. “Marie toca piano muito bem, não é, querida?” Não, respondi, não sei tocar nada. “Mas eu tenho certeza de que você me disse que tocava piano durante a entrevista”, ela disse com firmeza.

O esquecimento de minhas credenciais, a outra Marie Ochs e agora a história do piano. Pensei nas diversas vezes em que eu vira a aparentemente eficiente Srta. Shay chamar serventes pelo nome errado. Pela primeira vez eu tive a certeza de que, a não ser que alguém me reconhecesse, eu trabalharia no Playboy Club o tempo que quisesse.

Lá fora o sol brilhava e me perguntei quanto tempo eu gostaria de ficar. Já que Marie não seria descoberta, Marie teria de pôr um fim à sua própria carreira. De acordo com os horários desta semana, eu teria de trabalhar no almoço, quatro horas por dia, e só. Não era incumbência das mais invejadas mas me daria mais tempo para conversar com as Coelhinhas.

Decidi que Marie viveria até sexta-feira.

Como tudo começou
23/01/1963

Aceitei uma matéria munida de um enorme diário e o seguinte anúncio:

GAROTAS:
Será que as Coelhinhas da Playboy Realmente Têm Empregos Glamourosos, Conhecem Gente Famosa e Ganham Bem?

Sim, é verdade! Jovens atraentes podem ganhar entre US$ 200 e US$ 300 por semana no fabuloso Playboy Club de Nova York, deleitar-se com a glamourosa e excitante aura do show business e ter a oportunidade de viajar para os outros Playboy Clubs espalhados pelo mundo afora. Quer estejam servindo drinques, tirando fotos ou recebendo nossos convidados à porta, o Playboy Club é o palco e as Coelhinhas as estrelas.

O charme e a beleza de nossas Coelhinhas foram louvados na Time, na Newsweek, na Pageant, e o apresentador Ed Sullivan denominou o Playboy Club “a maior e mais nova atração do show business”. O Playboy Club é hoje o local mais badalado de Nova York.

Se você é bonita e simpática, tem entre 21 e 24 anos, solteira ou casada, este anúncio é para você. Não é necessário experiência anterior.

Inscreva-se pessoalmente em ENTREVISTAS ESPECIAIS, sábado e domingo, 26 e 27 de janeiro, das 10 às 15 horas. Favor trazer maiô ou malha de ginástica.
THE PLAYBOY CLUB
East 59th Street n° 5